domingo, 1 de novembro de 2026

Assinalámos o Halloween com um texto de Edgar Allan Poe - "O Retrato Oval"

 

“O Retrato Oval”

The Oval Portrait 

“O château[i] em que o meu criado se determinara a entrar à força, em vez de permitir-me, deploravelmente ferido como estava, passar uma noite ao ar livre, era uma daquelas construções, mistas de grandeza e de melancolia, que durante tanto tempo ergueram as suas frontes orgulhosas no meio dos Apeninos, tanto na realidade como na imaginação de Mrs. Radcliffe. Segundo todas as aparências, havia sido temporariamente e muito recentemente abandonado. Instalámo-nos num dos quartos mais pequenos e menos sumptuosamente mobilados. Ficava situado numa torre afastada do edifício. A sua decoração era rica, mas antiga e arruinada. As paredes encontravam-se revestidas de tapeçarias e decoradas com numerosos troféus heráldicos de todos os feitios, a par de uma porção realmente prodigiosa de pinturas modernas, cheias de estilo, em ricas molduras de ouro de um gosto arabesco. Tomei um interesse profundo – foi talvez o meu delírio que começava que lhe deu causa – por estas pinturas que se achavam suspensas não só nas faces principais das paredes, mas também numa quantidade de recantos que a arquitetura estranha do castelo tornava inevitáveis; de tal modo que ordenei a Peter que fechasse os pesados batentes do quarto, visto que já fazia noite, que acendesse um grande candelabro de vários braços colocado perto da minha cabeceira, e que abrisse bem para trás os cortinados de veludo negro debruados a franjas que rodeavam o leito. Desejava ficar assim para, ao menos, poder, se não conseguisse dormir, consolar-me alternadamente com a contemplação destas pinturas e com a leitura de um pequeno volume que tinha encontrado sobre a almofada e que continha a sua apreciação e análise.

          Li durante muito tempo, muito tempo; contemplei religiosamente, devotamente; as horas escoaram-se, rápidas e gloriosas, e a meia-noite profunda chegou. A posição do candelabro desagradava-me e, estendendo a mão com dificuldade, para não incomodar o meu criado adormecido, coloquei o objeto de modo a lançar os raios em cheio sobre o livro.

          Esta ação produziu, porém, um efeito absolutamente inesperado. Os raios de inúmeras velas (porque havia muitas) caíram então sobre um nicho do quarto que uma das colunas do leito até essa altura encobrira com uma sombra profunda. Notei a uma luz viva uma pintura que de início me escapara. Era o retrato de uma jovem já madura e quase mulher. Lancei à pintura um olhar rápido, e fechei os olhos. Porquê, eu próprio não o compreendi de seguida. Mas enquanto as pálpebras permaneciam fechadas, analisei rapidamente o motivo que mas fazia assim fechar. Era um movimento involuntário para ganhar tempo e para pensar – para me assegurar de que a vista não me enganara – para acalmar e preparar o espírito para uma contemplação mais fria e mais segura. Ao cabo de alguns instantes, tornei a fitar fixamente a pintura.

          Não podia duvidar, mesmo que tal quisesse, que então estava a ver com muita nitidez, porque o primeiro clarão da chama sobre esta tela dissipara o estupor melancólico de que os meus sentidos se achavam possuídos, e chamara-me de repente para a vida real.

          O retrato, já o disse, era o de uma jovem. Tratava-se de uma cabeça simples, com ombros, o todo no estilo a que se chama, em linguagem técnica, maneira de vignette[ii], muito no modo de ser de Sully nas suas cabeças prediletas. Os braços, o seio, e mesmo as pontas do cabelo radiosos, fundiam-se impercetivelmente na sombra vaga mas profunda que servia de fundo ao conjunto. A moldura era oval, magnificamente dourada e com lavores a prata no gosto moiresco. Como obra de arte, nada de mais admirável se podia encontrar do que a própria pintura. Mas pode muito bem ser que não fosse nem a execução da obra, nem a beleza imortal da fisionomia, que me tivessem impressionado tão súbita e fortemente. Ainda menos devia eu acreditar em que a minha imaginação, saindo de um semi-sono, houvesse tomado a cabeça pela de uma pessoa viva. Vi primeiro que os pormenores do desenho, o estilo da vinheta e o aspeto da moldura teriam dissipado imediatamente um tal encantamento e me teriam evitado qualquer ilusão, mesmo momentânea. Enquanto fazia estas reflexões, e muito vivamente, permaneci, meio sentado, meio estendido, talvez uma hora inteira. Por fim, tendo descoberto o verdadeiro segredo do seu efeito, tornei a deixar-me cair na cama. Adivinhara que o encanto da pintura era uma expressão vital absolutamente adequada à própria vida, que a princípio me fizera estremecer e, por fim, me confundira, subjugara, aterrorizara. Com um pavor profundo e respeitoso, repus o candelabro na sua posição primitiva. Tendo assim afastado da vista a causa primeira da minha tremenda agitação, agarrei logo no volume que continha a análise dos quadros e a sua história. Indo direito ao número que designava o retrato oval, li a narrativa vaga e singular que segue:

«Era uma jovem de uma beleza rara, e que não era menos amável do que cheia de alegria. E maldita foi a hora em que viu, e amou, e desposou, o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero, e tendo já encontrado uma esposa na sua Arte; ela, uma rapariga de uma beleza muito rara e não menos amável do que cheia de alegria: só luz e sorrisos, e a galhofa de um pavão novo; amando e prezando as coisas; apenas odiando a Arte que era a sua rival; apenas temendo a paleta e os pincéis, e os outros instrumentos importunos que a privavam da presença do seu adorado. Foi uma coisa terrível para esta dama ouvir o pintor falar do desejo de pintar até a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente, e sentou-se com doçura durante longas semanas no sombrio e alto quarto da torre, onde a luz se filtrava sobre a tela pálida somente pelo teto. Mas ele, o pintor, empenhava-se a fundo na obra, que avançava de hora para hora e de dia para dia. E era um homem apaixonado, estranho e pensativo, que se perdia em devaneios; de tal modo que não queria ver que a luz que tão lugubremente caía naquela torre isolada mirrava a saúde e os espíritos da mulher, que enlanguescia visivelmente para toda a gente, exceto para ele. Contudo, continuava a sorrir, e sem jamais se lastimar, porque via que o pintor (que tinha um grande nome) sentia um prazer vivo e ardente no seu trabalho, e trabalhava noite e dia para pintar a que tanto amava, mas que se tornava de dia para dia mais lânguida e mais fraca. E, na verdade, os que contemplavam o retrato falavam em voz baixa da sua semelhança, como uma forte maravilha e como uma prova não menor da força do pintor e do seu amor profundo pela que pintava tão miraculosamente bem. Mas, por fim, como a tarefa se aproximasse do seu termo, ninguém mais foi admitido na torre, porque o pintor enlouquecera devido ao ardor do seu trabalho, e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para fitar a figura da mulher. E não queria ver que as cores que expunha na tela eram tiradas das faces daquela que se achava sentada perto dele. E quando muitas semanas passaram e pouca coisa ficara para fazer, apenas um retoque na boca e uma cor clara e transparente no olhar, o espírito da dama palpitou ainda como a chama no bico de um candeeiro. E então foi dado o retoque, e então a cor clara e transparente foi colocada; e durante um momento o pintor manteve-se em êxtase diante do trabalho que elaborara; mas um minuto após, quando ainda o contemplava, estremeceu, tornou-se muito pálido – e foi atingido pelo pavor; gritando com uma voz retumbante: “Na verdade, é a própria Vida!”, virou-se bruscamente para encarar a sua bem-amada: ela estava morta!»



[i] Castelo. Esta história foi inspirada a Poe por um retrato pintado por Robert Sully, exposto na época numa galeria da 4.ª Avenida, em Nova Iorque. [N. do T.].

[ii] Vinheta 

Poe. E. A. (2019). Contos Fantásticos. Ulisseia.


Halloween na Biblioteca Escolar: entre a arte e o mistério!

 

A Biblioteca Escolar vestiu-se a rigor para celebrar o Halloween! A zona envolvente foi decorada a preceito, graças à criatividade e ao talento da professora Ana Teresa Caixinha e dos seus alunos de Artes Visuais, que contribuíram também com alguns trabalhos realizados em carvão, conferindo ao espaço uma atmosfera particularmente misteriosa!

Mas o Halloween também se fez de palavras e histórias… Os nossos alunos monitores voltaram a sair da Biblioteca para dinamizar a atividade «Leituras de Porta em Porta», partilhando com a comunidade educativa o conto «O Retrato Oval», do escritor norte-americano Edgar Allan Poe. Uma escolha perfeita para esta época, em que o suspense, o mistério e o inesperado andam à solta!

Entre imagens sombrias e palavras inquietantes, a Biblioteca Escolar celebrou o Halloween, mostrando que a arte e a literatura são também capazes de despertar emoções e de nos transportar para universos fascinantes… e um pouco assustadores!










Dia da Biblioteca Escolar: um dia dedicado à leitura, à reflexão e ao futuro!

 

No dia 26 de outubro, a Biblioteca Escolar assinalou o seu dia com um conjunto de atividades que envolveram a comunidade escolar e que tiveram como ponto de partida a leitura, o conhecimento e a reflexão sobre os desafios do mundo atual.

Uma das iniciativas dinamizadas foi «IA: O Futuro é Agora», dirigida às turmas do 9.º 1.ª e do 9.º 2.ª. A sessão começou com uma reflexão sobre o conceito de Inteligência Artificial, os seus benefícios e os riscos que a sua utilização pode comportar. Seguiu-se um trabalho de grupo, que envolveu a consulta de excertos das obras “Olá, Robot” e “IA: O Futuro é Agora”, procurando promover o debate em torno das implicações da presença da IA no nosso quotidiano e dos eventuais perigos a longo prazo. Uma atividade que desafiou os alunos a pensar criticamente sobre um tema tão atual e controverso!

O dia ficou também marcado pela já habitual iniciativa «Leituras de Porta em Porta», que voltou a contar com a colaboração entusiástica dos nossos alunos monitores. Desta vez, a comunidade escolar foi convidada a refletir sobre algumas das implicações da utilização da Inteligência Artificial em contexto educativo, através da partilha de excertos de uma tese de mestrado dedicada a esta temática.

Foi, sem dúvida, um dia em grande, repleto de leituras, partilhas e ideias, em que a Biblioteca Escolar saiu ao encontro da comunidade para celebrar o conhecimento, o pensamento crítico e o prazer de ler!

Porque a Biblioteca Escolar é um espaço vivo, onde se lê, se aprende, se questiona e se constrói o futuro!




sábado, 24 de outubro de 2026

“IA: O futuro é agora!” - Compreender para utilizar melhor

 

A Inteligência Artificial faz cada vez mais parte do nosso quotidiano, colocando-nos perante novas oportunidades, mas também novos desafios.

O livro “IA: O Futuro é Agora”, de Alberto Monteverdi, constitui uma excelente porta de entrada para este universo, apresentando, numa linguagem acessível e com o apoio de ilustrações apelativas, o funcionamento da Inteligência Artificial e algumas das questões éticas e sociais que o seu desenvolvimento suscita.

Como podemos compreender esta tecnologia? Que oportunidades nos oferece? Que cuidados devemos ter na sua utilização? Estas são algumas das questões que nos convidam a refletir sobre a importância de conhecer a IA para a utilizar de forma consciente, crítica e responsável.

No âmbito da celebração do Mês Internacional das Bibliotecas Escolares, subordinado ao lema «Bibliotecas, literacia e Inteligência Artificial», as turmas do 9.º ano estão a ser desafiadas a explorar este tema, reconhecendo a importância das bibliotecas escolares na promoção da literacia digital, do pensamento crítico e da utilização responsável da informação.

Porque compreender a Inteligência Artificial é também aprender a questionar, a verificar e a decidir, a Biblioteca Escolar continua a abrir portas ao conhecimento e a preparar os alunos para os desafios do presente e do futuro.

O futuro já começou. Será que estamos preparados para o compreender?

 


terça-feira, 13 de outubro de 2026

A nossa 1.ª sugestão de leitura para os alunos do 5.º ano

 

Já imaginaste passar um dia inteiro sem o telemóvel? Para muitos jovens, esta ideia parece quase impossível! Mas será que damos conta do tempo que passamos agarrados ao ecrã?

No livro “Eu não Quero Largar o Telemóvel”, A. P. Hernández convida-nos a refletir sobre a relação que estabelecemos com a tecnologia e sobre a importância de encontrar um equilíbrio entre o mundo digital e a vida real.

Passar demasiadas horas ao telemóvel pode trazer consequências: prejudicar o sono, dificultar a concentração, afetar o rendimento escolar, provocar cansaço visual e reduzir o tempo dedicado à leitura, à atividade física e ao convívio com a família e os amigos. Além disso, a utilização excessiva pode aumentar a ansiedade e criar uma necessidade constante de consultar notificações e redes sociais.

O desafio é simples: usar o telemóvel sem deixar que seja ele a controlar o nosso tempo!

Porque há conversas que merecem toda a nossa atenção, livros que nos transportam para outros mundos e momentos que são demasiado importantes para serem vividos através de um ecrã.

E tu? Consegues largar o telemóvel e descobrir tudo o que acontece à tua volta?

A Biblioteca Escolar convida-te a descobrir este livro, partilhando contigo alguns excertos do mesmo, e a refletir sobre os teus hábitos digitais!



“O Martim tomou uma decisão.

Quer um telemóvel. E quere-o já. Agora mesmo!

É que, na turma dele, toda a gente tem um.

Todos menos ele, claro.

Porque os seus pais teimam que ele é muito pequeno para ter um telemóvel.

Mas, por alguma estranha razão, não é muito novo para ir para a escola todos os dias durante sete horas. Nem para fazer todos os trabalhos de casa que lhe mandam os professores. Nem para estudar todos os livros que lhe dizem para estudar.

Aaaahhh!

Mas, para isso, sim, para ter um telemóvel com que se entreter um bocadinho de vez em quando, já é muito novo. Será que o mundo inteiro enlouqueceu?

A insistência do Martim em ter um telemóvel chegou tão longe…mas tão, tão longe, que os pais para não terem de ouvir mais a mesma lengalenga, fizeram um acordo com ele.

- Queres um telemóvel? – pergunta-lhe o pai, enquanto tomam o pequeno-almoço.

O Martim fica em branco. De tal maneira que as palavras não lhe saem. Por isso, limita-se a assentir energicamente com a cabeça.

- Então, se queres que te demos um telemóvel, escuta-nos com atenção – prossegue a mãe (…) – Vamos fazer um acordo, está bem?

O Martim engole em seco.

- Eu faço o que for preciso! – promete ele aos pais. – Até… Até… Até como as lentilhas se for preciso.(…)

- Se queres um telemóvel, tens de nos demonstrar que és um menino crescido e responsável.

- E para isso – continua o pai -, tens de ter Excelente em todos os testes.

O Martim leva as mãos à cabeça.

- Excelente? – Mal consegue acreditar. – Mas isso é impossível!

- Sem Excelentes, não há telemóvel. (…)

O Martim vai fazer o impossível.

Ele sabe que os pais lhe pediram para passar em todos os testes com a nota Excelente porque, no fundo, não acreditam que ele seja capaz. Porque não têm a menor intenção de lhe comprar um telemóvel.

Mas sabes que mais?

Não vão ter outro remédio a não ser comprar-lhe um telemóvel.

E sabes porquê?

Porque vai conseguir um Excelente em todos os testes! (…)

A partir de hoje, o Martim começa a estudar. E estuda como um lince. E mais… Estuda como uma autêntica máquina! (…)

E, de manhã, o seu pequeno-almoço é bolachas com livros. E, no pátio da escola, come sandes de queijo com livros.

E é assim que passa o tempo até chegar a altura dos testes. O Martim faz os testes tão bem, que os seus professores lhe dão Excelente em todos.

E não Bom ou Muito Bom. Não. Excelente!

O Martim chega a casa com o seu boletim de notas do segundo período e mostra-o aos pais. Eles ficam com cara de quem acabou de ver um fantasma.- Mas… Mas… (…)

O boletim de notas passa das mãos do Emílio para as da Letícia… e vice-versa… uma e outra vez.

O Martim ergue o queixo todo satisfeito. Os pais nem conseguem acreditar.(…)

E agora têm mesmo de lhe comprar um telemóvel.

Finalmente, chegou o dia. O Martim entra em casa após um longo dia na escola e dá de caras com os pais. Estão os dois de pé junto à porta de entrada e a sorrir. Mas o Martim não se concentra nos seus sorrisos, antes na caixinha envolta em papel de embrulho que a mãe tem nas mãos. (…)

- É o meu telemóvel! – O Martim começa a dar saltos pelo corredor, qual cabra-montesa. – O meu telemóvel! O meu telemóvel! E, depois de uns minutos de euforia, volta a recuperar a calma.

- Martim, nas últimas semanas, mostraste ser muito responsável – diz-lhe a mãe. – Por isso, eu e o teu pai decidimos oferecer-te isto. (…)

O Martim encolhe os dedos e rasga o papel como um animal enlouquecido. Abre a caixa do telemóvel e…

Ali está ele. É um telemóvel. O seu telemóvel. O seu próprio telemóvel. Está tão feliz que começa a chorar.

Desde que tem telemóvel, a vida do Martim mudou para sempre. Os colegas da escola adicionaram-no ao grupo de WhatsApp e agora está a par de tudo.

Já se pode rir com o seu amigo Henrique de todas as piadas que se contam, ver os vídeos que os colegas recomendam e jogar os mesmos jogos que todas as crianças da sua idade. Ter um telemóvel é maravilhoso.

Pelo menos, é nisso que ele acredita…

Hoje é sábado e, como sempre, combinou encontrar-se com o melhor amigo, o Henrique, e com o Rodrigo, o segundo melhor amigo.

Vão jogar futebol no parque por volta das onze da manhã, por isso o Martim toma um bom pequeno-almoço, pega na sua bola e sai de casa. (…)

Ao chegar, o Henrique já lá está. E o Rodrigo também. E, como se não bastasse, a Maria também decidiu ir jogar futebol.

- Bom dia! – cumprimenta-os o Martim, deixando a bola cair no chão. Mas os amigos não lhe respondem.

Estão superconcentrados nos seus telemóveis. Estão os três sentados no mesmo banco, à sombra de um pinheiro frondoso, e têm os olhares cravados nos ecrãs.

- Bom dia, malta! – repete o Martim. E após alguns segundos de silêncio, o Henrique diz-lhe:

- O-olá.

Está tão abstraído com o telemóvel que mal o ouve.

No entanto, a Maria e o Rodrigo não o cumprimentam. O Martim acha que, se calhar, não se aperceberam de que ele chegou.

- Bem, malta… - O Martim passa a bola de um pé para o outro. – Quem é que vai ser o guarda-redes? 

E, mais uma vez, silêncio. Todos deslizam os dedinhos de um lado para o outro do ecrã dos respetivos telemóveis.

O Martim, cansado de esperar, decide sentar-se ao pé dos amigos.

- Está bem! – diz-lhes, pousando a bola no colo. – Eu espero que vocês acabem.

E assim passam minutos… muitos minutos… muitíssimos…

O Martim está tão aborrecido que, com os ténis, remexeu toda a terra e as pedras que há debaixo do banco.

- Bem… vamos jogar agora?

Mas os amigos parecem ausentes. Não dizem nada. Durante todo o tempo que estão ali sentados, não disseram uma única palavra. Nada!

O Martim lembra-se de que, antes de terem telemóveis, não paravam de falar, de brincar, de rir…,

- Malta… - O Martim começa a ficar chateado. – Vamos jogar ou não?

O Rodrigo, pela primeira vez desde que o viu, levanta os olhos do telemóvel. Tem os olhos em bico e um pouco irritados.

- Martim, já estamos a jogar.

E, como se não fosse suficientemente óbvio, mostra-lhe o ecrã do telemóvel.

- Tenho cinco mil pontos! – gaba-se a Maria.

- E eu, sete mil! – afirma o Henrique.

- Mas eu estou a falar de jogarmos futebol. – O Martim aponta para a bola que descansou docilmente no seu colo este tempo todo. – Combinámos vir jogar futebol! Lembram-se?

- Porque é que não jogas também a isto? – pergunta a Maria.

- Porque deixei o telemóvel em casa – explica o Martim – e porque quero jogar futebol.

Mas os amigos não estão dispostos a largar os telemóveis. Dando a conversa por concluída, voltam a baixar as cabeças e a concentrar-se nos smartphones.

O Martim, que já tem o rabo dorido de estar tanto tempo sentado, pega na bola e põe-se a jogar sozinho.

O Martim chega a casa triste. Nenhum dos amigos quis jogar futebol com ele, por isso teve de jogar contra a parede. Dava um pontapé na bola, que ressaltava na parede para ele lhe dar outro pontapé. E assim continuou durante quase duas horas. Jogar contra a parede não é nada divertido. (…)

Para o caso de não saberes, o Martim tem um cão e um gato. O seu gato, o Felpudo, e a sua cadelinha, a Nevada, dão-se muito bem. A Nevada tem seis meses e está cheia de energia, por isso o Martim tem de a passear todos os dias.

- Nevada! – chama-a ele. – Vamos?

E a cadelinha começa a dar saltos de pura felicidade. (…) O Martim segura a trela da Nevada com a mão direita até que ouve um bip. É o seu telemóvel.

O Martim tira-o do bolso com a mão esquerda e verifica que tem uma mensagem nova.

- De quem será?

Continua a andar enquanto olha para o ecrã, seleciona a aplicação do WhatsApp Messenger e comprova que no grupo «Colegas de Turma» há 25 mensagens novas. Carrega no grupo e começa a ler. A última mensagem é…

PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

O Martim para de repente, com o coração a mil à hora.

Levanta os olhos do telemóvel e confirma que está no meio da estrada. Um carro travou mesmo à sua frente.

O condutor baixa a janela.

- Meus Deus, rapaz! – grita-lhe. – Estás cego?

O Martim está tão assustado que não diz nada. A Nevada empina-se, apoiando-se no seu joelho enquanto lhe lambe a mão.

- Tens de atravessar na passadeira! – diz-lhe o homem do carro. – E tens de tirar os olhos do telemóvel quando o fazes! É muito perigoso! (…)

O Martim não aguenta mais. Tem de fazer alguma coisa o quanto antes, por isso vai ter com a mãe.

- Martim! – exclama ela. – Que estás a fazer acordado?

- Não consigo dormir, mãe.

O Martim senta-se no sofá junto à mãe e esta aconchega-o entre os braços.

- Que te preocupa, filho?

- É… É o telemóvel… - confessa. – Está a dar comigo em doido. Desde que tenho telemóvel, tudo mudou. Ao almoço, a massa ficou fria, esta noite não consegui ver o filme A Idade do Gelo e à tarde… à tarde quase fui atropelado por um carro.

A mãe reprime um grito.

- O quê?!

- Odeio o telemóvel, mãe… E os meus amigos ficam chateados se não ler as mensagens deles… E passam o dia todo a enviar mensagens!

A Letícia faz-lhe festas no cabelo, esboçando um sorriso cheio de carinho.

- Filho… Ter um telemóvel pode ser uma coisa muito boa ou muito má. (…) Um telemóvel pode ser uma coisa boa quando é usado com responsabilidade. Por exemplo, no outro dia, o motor da carrinha do teu pai avariou-se em plena autoestrada e, graças ao seu telemóvel, conseguiu ligar para um reboque o ir buscar. O Martim escuta com toda a atenção.

- Um telemóvel também pode ser muito divertido se jogares um bocadinho com ele ou se o usares para falar um pouco com os teus amigos, mas que acontece se passares o dia todo a usar o telemóvel?

O Martim não diz nada.

- Que acontece se, desde que te levantas até que te deitas, estiveres sempre ao telemóvel? (…) - Ficas com dor de cabeça.

O Martim pensa em tudo o que a mãe acaba de lhe dizer.

- E agora, mãe? O que é que eu faço?

A mãe acaricia-lhe o queixo.

- Vamos criar regras, está bem? Algumas condições de utilização. (…)

- A primeira regra é que o telemóvel não é um brinquedo.

- A segunda é que, embora o telemóvel seja teu, isso não significa que só tu o possas usar. Eu e a tua mãe também o utilizaremos para nos assegurarmos de que fazes um bom uso dele. (…)

- A terceira regra é que vais ter um horário para o utilizar, por exemplo, meia hora antes do jantar. Ter um horário fixo é muito importante. (…)

Benditas regras. Agora, tudo é mais simples. (…) O Martim aprendeu que há um momento para cada coisa.”

In Hernández, A. P. (2025). Eu não quero largar o telemóvel. Presença. (Adaptado)

 


Alunos do 5.º ano "exploram" a Biblioteca Escolar

 

As turmas do 5.º ano estão a participar na atividade «Conhecer a Biblioteca Escolar», uma iniciativa que pretende dar a conhecer este espaço, a organização do fundo documental e algumas das regras essenciais do seu funcionamento.

Organizados em grupos, os alunos percorrem três estações de aprendizagem, onde são desafiados a realizar diferentes tarefas. Começam por reconstruir, num iPad, com recurso a uma App que permite a construção de puzzles, a capa do livro “A viúva e o papagaio”, de Virginia Woolf, explorando-a, de seguida, e descobrindo o conceito de cota. Na segunda estação, partem à descoberta das estantes, localizam livros e familiarizam-se com o sistema de “Classificação Decimal Universal” (CDU), o Guia do Utilizador da BE/CRE, e as regras de requisição e utilização dos documentos. Na terceira estação, exploram o texto da contracapa da obra e recorrem ao dicionário para descobrir o significado de uma palavra mais difícil.

A atividade termina com um animado desafio Kahoot, que permite testar os conhecimentos adquiridos de forma divertida e interativa!

Entre jogos, livros e descobertas, os nossos alunos dão os primeiros passos para se tornarem utilizadores autónomos e conscientes da Biblioteca Escolar, um espaço de aprendizagem, conhecimento e prazer de ler.







segunda-feira, 5 de outubro de 2026

5 de outubro de 1910 - Implantação da República

A NOSSA SUGESTÃO DE LEITURA PARA OS MAIS JOVENS

Há 116 anos, Portugal viveu um dos momentos mais marcantes da sua História. A 5 de outubro de 1910, a Revolução Republicana pôs fim à Monarquia e deu início a uma nova etapa política, marcada pelos ideais de liberdade, cidadania e participação.

Mas o que aconteceu naquele dia? Como se desenrolou a Revolução? E que mudanças trouxe a República ao nosso país?

Para conhecer melhor este importante acontecimento da História de Portugal, convidamos-vos a assistir aos seguintes vídeos e a recordar os acontecimentos que marcaram o dia 5 de outubro de 1910.

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

“Book Tasting”: quando os livros entram no menu!

 

Na Biblioteca Escolar da Escola Básica e Secundária de Gama Barros, os livros também se degustam!

No âmbito da disciplina de Português, todas as turmas do 7.º ano estão a participar numa experiência diferente e saborosa: o “Book Tasting”, uma atividade que transforma a Biblioteca num verdadeiro restaurante de livros.

À entrada, cada aluno recebe o seu “Menu”, que vai preenchendo à medida que percorre as mesas e “prova” os livros disponíveis. Cada participante escolhe dois livros, explora as suas capas, títulos, sinopses e primeiras páginas e regista no seu menu as primeiras impressões sobre aquilo que acabou de “degustar”.

Mas, neste restaurante, a refeição não termina à mesa! No final da experiência, cada aluno escolhe um dos livros que provou e prepara o seu melhor “argumento de venda”, tentando convencer os colegas de turma de que aquele é um livro que vale a pena ler.

Mais do que escolher um livro, o “Book Tasting” é uma oportunidade para descobrir novos autores, conhecer histórias diferentes e, sobretudo, despertar a curiosidade e o prazer de ler.

Porque, quando se trata de livros, há sabores para todos os gostos… e nunca se sabe qual será a próxima leitura favorita!







domingo, 20 de setembro de 2026

Uma receção em grande aos novos alunos do 5.º ano!

 

Nos dias 11 e 14 de setembro, a Escola Básica e Secundária de Gama Barros abriu as suas portas aos novos alunos do 5.º ano, proporcionando-lhes dois dias cheios de descobertas, experiências, desafios e, sobretudo, muitos momentos de convívio!

A aventura começou no auditório da escola, onde alunos e encarregados de educação foram recebidos com as palavras de boas-vindas do Diretor do Agrupamento, Prof. António Gouveia.

Depois, foi tempo de partir à descoberta da escola! Acompanhados pelos docentes do Projeto Mente Saudável, os alunos percorreram o recreio, com especial atenção à zona dos jogos. Conheceram as diferentes possibilidades de que dispõem para tornar os seus intervalos mais divertidos, ativos e saudáveis e, claro, não faltou a oportunidade de experimentar!





A etapa seguinte levou-os até aos laboratórios de Física e de Química, onde os docentes destas disciplinas os esperavam com experiências verdadeiramente espetaculares! Entre surpresas, descobertas e algum espanto, os nossos novos alunos puderam perceber que a Ciência também pode ser fascinante e muito divertida!








E porque aprender também é mexer, correr, cooperar e superar desafios, a última paragem foi no pavilhão gimnodesportivo. Os professores de Educação Física prepararam várias provas que puseram à prova as capacidades físicas dos alunos e, ao mesmo tempo, promoveram o espírito de equipa, a cooperação e a entreajuda.





Enquanto os alunos viviam estas experiências, os seus encarregados de educação tinham também o seu próprio percurso. Depois do acolhimento pelos respetivos diretores de turma, foram recebidos na Biblioteca Escolar pela psicóloga, Inês Silva, e pela professora bibliotecária, Filomena Lima, para uma conversa sobre dois temas essenciais no crescimento dos jovens: a utilização equilibrada dos ecrãs e a importância da leitura.

Falou-se sobre a necessidade de reduzir o tempo passado ao telemóvel e noutros dispositivos e, sobretudo, sobre a importância de encontrar alternativas mais saudáveis: conversar em família, recuperar momentos de partilha, como o jantar sem telemóveis à mesa, e dedicar tempo a atividades que aproximem pais e filhos.

A professora bibliotecária procurou, ainda, sensibilizar os Encarregados de Educação para o papel fundamental da leitura, incentivando a criação de momentos de leitura partilhada entre pais e filhos — porque ler juntos também é uma forma de crescer juntos.







E, para terminar esta receção tão especial, quando alunos e famílias já se encontravam reunidos na Biblioteca Escolar, cada aluno recebeu uma capa recheada de pequenas surpresas: um excerto do livro Eu não quero largar o telemóvel, de A. P. Hernández, uma BD inspirada nesse texto para completar na aula de Cidadania, um folheto sobre o Recreio Vivo e Ativo, um “flyer” com as modalidades do Desporto Escolar, uma receita saudável de bolachinhas de aveia para lanches equilibrados, um pacote de chá e um marcador de livros produzido nas impressoras 3D pela coordenadora do CTE - Centro Tecnológico Especializado - professora Paula Anjos.

Resta-nos agradecer a participação de todos os docentes envolvidos nesta atividade – docentes de Física e Química, docentes de Educação Física, docentes do Projeto “Mente Saudável”, e à docente Ana Paula Luz da equipa da biblioteca escolar e às assistentes operacionais da biblioteca.

Foram dois dias intensos, divertidos e memoráveis, vividos por muitos dos que fazem da nossa escola uma verdadeira comunidade.

Esperamos que estes primeiros passos na Gama Barros tenham deixado nos nossos novos alunos muitas boas recordações e, acima de tudo, a vontade de descobrir tudo o que esta escola tem para lhes oferecer!

Bem-vindos ao 5.º ano! A aventura está apenas a começar!