Já imaginaste passar um
dia inteiro sem o telemóvel? Para muitos jovens, esta ideia parece quase
impossível! Mas será que damos conta do tempo que passamos agarrados ao ecrã?
No livro “Eu não Quero Largar
o Telemóvel”, A. P. Hernández convida-nos a refletir sobre a relação que
estabelecemos com a tecnologia e sobre a importância de encontrar um equilíbrio
entre o mundo digital e a vida real.
Passar demasiadas horas
ao telemóvel pode trazer consequências: prejudicar o sono, dificultar a
concentração, afetar o rendimento escolar, provocar cansaço visual e reduzir o
tempo dedicado à leitura, à atividade física e ao convívio com a família e os amigos.
Além disso, a utilização excessiva pode aumentar a ansiedade e criar uma
necessidade constante de consultar notificações e redes sociais.
O desafio é simples:
usar o telemóvel sem deixar que seja ele a controlar o nosso tempo!
Porque há conversas que
merecem toda a nossa atenção, livros que nos transportam para outros mundos e
momentos que são demasiado importantes para serem vividos através de um ecrã.
E tu? Consegues largar
o telemóvel e descobrir tudo o que acontece à tua volta?
A Biblioteca Escolar
convida-te a descobrir este livro, partilhando contigo alguns excertos do mesmo,
e a refletir sobre os teus hábitos digitais!
“O Martim tomou uma
decisão.
Quer um telemóvel.
E quere-o já. Agora mesmo!
É que, na turma
dele, toda a gente tem um.
Todos menos ele,
claro.
Porque os seus pais
teimam que ele é muito pequeno para ter um telemóvel.
Mas, por alguma
estranha razão, não é muito novo para ir para a escola todos os dias durante
sete horas. Nem para fazer todos os trabalhos de casa que lhe mandam os
professores. Nem para estudar todos os livros que lhe dizem para estudar.
Aaaahhh!
Mas, para isso,
sim, para ter um telemóvel com que se entreter um bocadinho de vez em quando,
já é muito novo. Será que o mundo inteiro enlouqueceu?
A insistência do
Martim em ter um telemóvel chegou tão longe…mas tão, tão longe, que os pais
para não terem de ouvir mais a mesma lengalenga, fizeram um acordo com ele.
- Queres um
telemóvel? – pergunta-lhe o pai, enquanto tomam o pequeno-almoço.
O Martim fica em
branco. De tal maneira que as palavras não lhe saem. Por isso, limita-se a
assentir energicamente com a cabeça.
- Então, se queres
que te demos um telemóvel, escuta-nos com atenção – prossegue a mãe (…) – Vamos
fazer um acordo, está bem?
O Martim engole em
seco.
- Eu faço o que for
preciso! – promete ele aos pais. – Até… Até… Até como as lentilhas se for
preciso.(…)
- Se queres um
telemóvel, tens de nos demonstrar que és um menino crescido e responsável.
- E para isso –
continua o pai -, tens de ter Excelente em todos os testes.
O Martim leva as
mãos à cabeça.
- Excelente? – Mal
consegue acreditar. – Mas isso é impossível!
- Sem Excelentes,
não há telemóvel. (…)
O Martim vai fazer
o impossível.
Ele sabe que os
pais lhe pediram para passar em todos os testes com a nota Excelente porque, no
fundo, não acreditam que ele seja capaz. Porque não têm a menor intenção de lhe
comprar um telemóvel.
Mas sabes que mais?
Não vão ter outro
remédio a não ser comprar-lhe um telemóvel.
E sabes porquê?
Porque vai
conseguir um Excelente em todos os testes! (…)
A partir de hoje, o
Martim começa a estudar. E estuda como um lince. E mais… Estuda como uma
autêntica máquina! (…)
E, de manhã, o seu
pequeno-almoço é bolachas com livros. E, no pátio da escola, come sandes de
queijo com livros.
E é assim que passa
o tempo até chegar a altura dos testes. O Martim faz os testes tão bem, que os
seus professores lhe dão Excelente em todos.
E não Bom ou Muito
Bom. Não. Excelente!
O Martim chega a
casa com o seu boletim de notas do segundo período e mostra-o aos pais. Eles
ficam com cara de quem acabou de ver um fantasma.- Mas… Mas… (…)
O boletim de notas
passa das mãos do Emílio para as da Letícia… e vice-versa… uma e outra vez.
O Martim ergue o
queixo todo satisfeito. Os pais nem conseguem acreditar.(…)
E agora têm mesmo
de lhe comprar um telemóvel.
Finalmente, chegou
o dia. O Martim entra em casa após um longo dia na escola e dá de caras com os
pais. Estão os dois de pé junto à porta de entrada e a sorrir. Mas o Martim não
se concentra nos seus sorrisos, antes na caixinha envolta em papel de embrulho
que a mãe tem nas mãos. (…)
- É o meu
telemóvel! – O Martim começa a dar saltos pelo corredor, qual cabra-montesa. –
O meu telemóvel! O meu telemóvel! E, depois de uns minutos de euforia, volta a
recuperar a calma.
- Martim, nas
últimas semanas, mostraste ser muito responsável – diz-lhe a mãe. – Por isso,
eu e o teu pai decidimos oferecer-te isto. (…)
O Martim encolhe os
dedos e rasga o papel como um animal enlouquecido. Abre a caixa do telemóvel e…
Ali está ele. É um
telemóvel. O seu telemóvel. O seu próprio telemóvel. Está tão feliz que começa
a chorar.
Desde que tem
telemóvel, a vida do Martim mudou para sempre. Os colegas da escola
adicionaram-no ao grupo de WhatsApp e agora está a par de tudo.
Já se pode rir com
o seu amigo Henrique de todas as piadas que se contam, ver os vídeos que os
colegas recomendam e jogar os mesmos jogos que todas as crianças da sua idade.
Ter um telemóvel é maravilhoso.
Pelo menos, é nisso
que ele acredita…
Hoje é sábado e,
como sempre, combinou encontrar-se com o melhor amigo, o Henrique, e com o
Rodrigo, o segundo melhor amigo.
Vão jogar futebol
no parque por volta das onze da manhã, por isso o Martim toma um bom
pequeno-almoço, pega na sua bola e sai de casa. (…)
Ao chegar, o
Henrique já lá está. E o Rodrigo também. E, como se não bastasse, a Maria
também decidiu ir jogar futebol.
- Bom dia! –
cumprimenta-os o Martim, deixando a bola cair no chão. Mas os amigos não lhe
respondem.
Estão
superconcentrados nos seus telemóveis. Estão os três sentados no mesmo banco, à
sombra de um pinheiro frondoso, e têm os olhares cravados nos ecrãs.
- Bom dia, malta! –
repete o Martim. E após alguns segundos de silêncio, o Henrique diz-lhe:
- O-olá.
Está tão abstraído
com o telemóvel que mal o ouve.
No entanto, a Maria
e o Rodrigo não o cumprimentam. O Martim acha que, se calhar, não se
aperceberam de que ele chegou.
- Bem, malta… - O Martim passa a bola de um pé para o outro. – Quem é que vai ser o guarda-redes?
E, mais uma vez,
silêncio. Todos deslizam os dedinhos de um lado para o outro do ecrã dos
respetivos telemóveis.
O Martim, cansado
de esperar, decide sentar-se ao pé dos amigos.
- Está bem! –
diz-lhes, pousando a bola no colo. – Eu espero que vocês acabem.
E assim passam
minutos… muitos minutos… muitíssimos…
O Martim está tão
aborrecido que, com os ténis, remexeu toda a terra e as pedras que há debaixo
do banco.
- Bem… vamos jogar
agora?
Mas os amigos
parecem ausentes. Não dizem nada. Durante todo o tempo que estão ali sentados,
não disseram uma única palavra. Nada!
O Martim lembra-se
de que, antes de terem telemóveis, não paravam de falar, de brincar, de rir…,
- Malta… - O Martim
começa a ficar chateado. – Vamos jogar ou não?
O Rodrigo, pela
primeira vez desde que o viu, levanta os olhos do telemóvel. Tem os olhos em
bico e um pouco irritados.
- Martim, já
estamos a jogar.
E, como se não
fosse suficientemente óbvio, mostra-lhe o ecrã do telemóvel.
- Tenho cinco mil
pontos! – gaba-se a Maria.
- E eu, sete mil! –
afirma o Henrique.
- Mas eu estou a
falar de jogarmos futebol. – O Martim aponta para a bola que descansou
docilmente no seu colo este tempo todo. – Combinámos vir jogar futebol!
Lembram-se?
- Porque é que não
jogas também a isto? – pergunta a Maria.
- Porque deixei o
telemóvel em casa – explica o Martim – e porque quero jogar futebol.
Mas os amigos não
estão dispostos a largar os telemóveis. Dando a conversa por concluída, voltam
a baixar as cabeças e a concentrar-se nos smartphones.
O Martim, que já
tem o rabo dorido de estar tanto tempo sentado, pega na bola e põe-se a jogar
sozinho.
O Martim chega a
casa triste. Nenhum dos amigos quis jogar futebol com ele, por isso teve de
jogar contra a parede. Dava um pontapé na bola, que ressaltava na parede para
ele lhe dar outro pontapé. E assim continuou durante quase duas horas. Jogar
contra a parede não é nada divertido. (…)
Para o caso de não
saberes, o Martim tem um cão e um gato. O seu gato, o Felpudo, e a sua
cadelinha, a Nevada, dão-se muito bem. A Nevada tem seis meses e está cheia de
energia, por isso o Martim tem de a passear todos os dias.
- Nevada! – chama-a
ele. – Vamos?
E a cadelinha
começa a dar saltos de pura felicidade. (…) O Martim segura a trela da Nevada
com a mão direita até que ouve um bip. É o seu telemóvel.
O Martim tira-o do
bolso com a mão esquerda e verifica que tem uma mensagem nova.
- De quem será?
Continua a andar
enquanto olha para o ecrã, seleciona a aplicação do WhatsApp Messenger e
comprova que no grupo «Colegas de Turma» há 25 mensagens novas. Carrega no
grupo e começa a ler. A última mensagem é…
PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
O Martim para de
repente, com o coração a mil à hora.
Levanta os olhos do
telemóvel e confirma que está no meio da estrada. Um carro travou mesmo à sua
frente.
O condutor baixa a
janela.
- Meus Deus, rapaz!
– grita-lhe. – Estás cego?
O Martim está tão
assustado que não diz nada. A Nevada empina-se, apoiando-se no seu joelho
enquanto lhe lambe a mão.
- Tens de
atravessar na passadeira! – diz-lhe o homem do carro. – E tens de tirar os
olhos do telemóvel quando o fazes! É muito perigoso! (…)
O Martim não
aguenta mais. Tem de fazer alguma coisa o quanto antes, por isso vai ter com a
mãe.
- Martim! – exclama
ela. – Que estás a fazer acordado?
- Não consigo
dormir, mãe.
O Martim senta-se
no sofá junto à mãe e esta aconchega-o entre os braços.
- Que te preocupa,
filho?
- É… É o telemóvel…
- confessa. – Está a dar comigo em doido. Desde que tenho telemóvel, tudo
mudou. Ao almoço, a massa ficou fria, esta noite não consegui ver o filme A
Idade do Gelo e à tarde… à tarde quase fui atropelado por um carro.
A mãe reprime um
grito.
- O quê?!
- Odeio o
telemóvel, mãe… E os meus amigos ficam chateados se não ler as mensagens deles…
E passam o dia todo a enviar mensagens!
A Letícia faz-lhe
festas no cabelo, esboçando um sorriso cheio de carinho.
- Filho… Ter um
telemóvel pode ser uma coisa muito boa ou muito má. (…) Um telemóvel pode ser
uma coisa boa quando é usado com responsabilidade. Por exemplo, no outro dia, o
motor da carrinha do teu pai avariou-se em plena autoestrada e, graças ao seu
telemóvel, conseguiu ligar para um reboque o ir buscar. O Martim escuta com
toda a atenção.
- Um telemóvel
também pode ser muito divertido se jogares um bocadinho com ele ou se o usares
para falar um pouco com os teus amigos, mas que acontece se passares o dia todo
a usar o telemóvel?
O Martim não diz
nada.
- Que acontece se,
desde que te levantas até que te deitas, estiveres sempre ao telemóvel? (…) -
Ficas com dor de cabeça.
O Martim pensa em
tudo o que a mãe acaba de lhe dizer.
- E agora, mãe? O
que é que eu faço?
A mãe acaricia-lhe
o queixo.
- Vamos criar
regras, está bem? Algumas condições de utilização. (…)
- A primeira regra
é que o telemóvel não é um brinquedo.
- A segunda é que,
embora o telemóvel seja teu, isso não significa que só tu o possas usar. Eu e a
tua mãe também o utilizaremos para nos assegurarmos de que fazes um bom uso
dele. (…)
- A terceira regra
é que vais ter um horário para o utilizar, por exemplo, meia hora antes do
jantar. Ter um horário fixo é muito importante. (…)
Benditas regras. Agora, tudo é mais simples. (…) O Martim aprendeu que há um momento para cada coisa.”
In Hernández, A. P. (2025). Eu não quero largar o telemóvel. Presença. (Adaptado)




















































