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| Capa da mais recente edição das "Cartas de Amor" e que dá a conhecer toda a correspondência trocada entre o poeta e Ofélia |
No âmbito das comemorações do Dia de S. Valentim, a Biblioteca Escolar dinamizou, em parceria com as docentes de Português, várias sessões dirigidas às turmas do 12.º ano, centradas na leitura e exploração das Cartas de Amor de Fernando Pessoa.
Estas sessões, dinamizadas pela professora bibliotecária, Filomena Lima, tiveram como principal objetivo dar a conhecer uma faceta mais íntima e humana do poeta, muitas vezes distante da imagem intelectual e fragmentada associada aos seus heterónimos. Através da leitura de excertos das cartas dirigidas a Ofélia Queiroz, os alunos foram convidados a refletir sobre a expressão dos sentimentos, a linguagem amorosa e o contexto histórico e literário em que estes textos foram escritos.
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| Edição de 1970 e que pertence ao acervo da biblioteca |
A atividade promoveu o
diálogo, a interpretação crítica e a aproximação à obra pessoana, mostrando que
a literatura clássica pode ser surpreendentemente atual e próxima das vivências
dos jovens. A reação dos alunos foi muito positiva, destacando-se o interesse
despertado pela dimensão afetiva do autor e pela forma simples, por vezes
ingénua, com que o amor é expresso nas cartas.
A Biblioteca agradece a
participação de todos e reforça o seu compromisso em promover iniciativas que
cruzem literatura, emoções e formação cultural.
Não deixe de ler, pelo menos, estas duas cartas que aqui lhe deixamos:
“23-3-1920
Meu querido Bebezinho:
Hoje, com a quasi certeza que o
Osório não te poderá encontrar, pois, além de ter que esperar aqui pelo Valadas,
tem naturalmente que ir levar açúcar a casa do meu primo, quasi que de nada me
serve escrever-te. Vão, em todo o caso, estas linhas, para o caso de sempre ser
possível fazer-te chegar a carta às mãos.
Ainda bem que a interrupção de ainda
agora foi mesmo no fim da nossa conversa, quando íamos despedir-nos. Era
justamente para evitar interrupções dessas que eu escolhi o caminho por onde
hoje íamos. Amanhã esperarei à mesma hora, sim, Bebé?
Não me conformo com a ideia de
escrever; queria falar-te, ter-te sempre ao pé de mim, não ser necessário
mandar-te cartas. As cartas são sinais de separação - sinais, pelo menos, pela
necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados.
Não te admires de certo laconismo
nas minhas cartas. As cartas são para as pessoas a quem não interessa mais
falar: para essas escrevo de boa vontade. A minha mãe, por exemplo, nunca
escrevi de boa vontade, exactamente porque gosto muito dela.
Quero que notes isto, que saibas que
eu sinto e penso assim a este respeito, para não estranhares, para não me
achares seco, frio, indiferente. Eu não o sou, meu Bebé-menininho, minha
almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!).
Mando um meiguinho chinês.[1]
E adeus até amanhã, meu anjo.
Um quarteirão de milhares de beijos
do teu, sempre teu
O Osório leva o chinês dentro de uma
caixa de fósforos.
Lx,
23-3-1920 (1h, 20 da noite)
Meu
querido amor
Não
calculas a minha grande alegria quando vi o Osório e lhe perguntei se tinha
alguma coisa para mim e me disse que sim. Gostava muito de receber cartinha tua
meu amor, mas confesso que não tinha lá muitas esperanças, (…) mas não, o meu
amorzinho é muito bonzinho (às vezes, porque outras é muito mau).
É
verdade que foi bom ser já no fim da nossa conversa que houve a interrupção, se
não como eu não ficaria desgostosa, mas ao mesmo tempo achei piada. Eu venho
escrever-te alguma coisinha porque não posso passar já sem te escrever qualquer
coisinha.
Sim
meu filhinho amanhã encontrar-nos-emos à nossa hora habitual o que tomara já
porque estou bem desejosa de te ver. Já tenho tantas saudades! A gente vê-se
tão pouco! Tu querias estar sempre ao pé de mim pois esse era também o meu
maior desejo, mas infelizmente não pode ser… por enquanto… lá virá esse tempo,
o que tenho esperança não há-de vir muito longe. Depois hás-de sair pouco de
casa sim? Hás-de estar muito tempo ao pé da tua mulherzinha pequenina para a
indemnizares do tempo que esteve separada do seu Fernandinho querido. Depois
naturalmente até te aborreces, ou não? Com que então há quarto para nós em casa
de tua mãe? Está bem, então já não falta tudo, cabemos lá não é verdade? Quem
me dera!
Sim
as cartas são sinais de separação, e justamente por se estar separado é que se
deve escrever o que não há forma de se dizer pessoalmente, mas tu escreves tão
pouco… Aquela carta que escreveste quando estavas doentinho, essa sim, era
grande e muito meiguinha. Sabes que tenho estado hoje muito contente?! Achei-te
hoje mais meu amiguinho do que ontem, ou seja porque estivesses mais bem
disposto hoje. Não te descuides com o retrato não? Dá-mo o mais depressa
possível.
Olha
Fernandinho, diz-me, não achas melhor eu qualquer dia dizer a minha irmã que tu
já te declaraste? Que vieste ao meu encontro ou que me escreveste? Que achas?
Eu acho que é melhor, porque qualquer dia ela vê-me ou vêem-me e vão-lhe dizer
e depois é muito pior, far-lhe-ia mil confusões, e mesmo para ela não estar a
pensar de ti uma coisa muito diferente.
Amanhã
o meu amorzinho fala-me a esse respeito, sim? Achei muitíssima piada ao
meiguinho chinês e agradeço-te muito. Como tu descobres estas coisas!
(…)
Achei imensa, mas mesmo imensa piada à almofadinha cor-de-rosa para pregar
beijos, o que tu não inventas não inventa ninguém. Mas o pior é que a
almofadinha agora não tem apanhado alfinetes
e já tem saudades. Adeus meu querido «Nininho» (…). Agradeço o teu quarteirão
de milhares [de] beijos e envio-te um cento de milhares deles muito, muito
doces (ainda mais que os bombons). Já tenho saudades de ir dar um passeio até à
«Índia»[2].
Adeus
meu filhinho pensa muito muito, muito na tua, muito tua
Ofélia «Pessoa» (quem me dera)”
Silva,
M. P. (ed.). (2019). Cartas de Amor de
Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Assírio & Alvim.
[1]
O «meiguinho chinês» enviado a Ofélia, era um boneco de uma série para
colecionar.
[2]
Expressão em código amoroso, muitas vezes usada por Ofélia, com evidente
conotação erótica, designando provavelmente alguma forma de intimidade.











































