No âmbito das
comemorações do Dia Internacional da Mulher, que se assinalou no dia 8 de
março, realizou-se no Agrupamento de Escolas D. Maria II a atividade “Leituras
de porta em porta”, uma iniciativa de sensibilização que procurou promover a
reflexão sobre a igualdade entre mulheres e homens.
Durante a atividade
foram distribuídos dois textos a todos os docentes, assistentes administrativos
e assistentes operacionais do agrupamento. O primeiro, “Trabalhos invisíveis”,
do livro O Futuro Recordado, de Irene Vallejo, aborda a persistente
invisibilidade do trabalho doméstico realizado pelas mulheres desde a
Antiguidade Clássica. O segundo texto, publicado no “Observador”, e intitulado “Faltam
cinco gerações para os homens portugueses partilharem tarefas domésticas”,
destaca as desigualdades que ainda persistem na sociedade atual, não só na
partilha das tarefas domésticas, mas também ao nível salarial e das
oportunidades de progressão profissional.
Para além da partilha
destes textos, foi oferecido, simbolicamente, a todas as mulheres que trabalham
no agrupamento um chocolate “Merci”, como forma de reconhecimento e
agradecimento pela dedicação, empenho e contributo diário que dão à vida das
escolas do Agrupamento de Escolas D. Maria II.
Trabalhos
invisíveis
“As
tarefas domésticas repetem-se todos os dias. Sem cessar, o pó cobre as coisas
com o seu manto cinzento. É preciso pensar na comida e prepará-la, cortar os
bocados, fritar e vigiar, envolver. Acompanhar os idosos, cuidar das crianças.
E, quando está tudo terminado, os rastos apagados, o lava-louças brilhante como
um espelho, temos de voltar a começar. Os especialistas dizem que juntaríamos
milhões de euros ao PIB se contabilizássemos o trabalho doméstico não
remunerado. Essas horas ignoradas, esse tempo que não é ouro. Como estamos a
distribuir os esforços não remunerados?
A
primeira obra literária ocidental é um hino à guerra, e quase não retrata as
tarefas dos homens na vida diária. Numa dessas raras ocasiões, Homero conta que
o troiano Heitor, ao voltar do combate, sentava o seu pequeno filho ao colo
para lhe dar de comer. No outro bando, o velho Fénix explica que criou o menino
Aquiles há vinte anos, limpando-o, cortando a comida em pedacinhos para ele:
«Quantas vezes sujaste a minha túnica ao vomitar! As crianças dão mesmo
trabalho!» Na Ilíada, os heróis são recordados pelas suas batalhas, e o
esforço repetido das tarefas do lar fica fora de cena, nas mãos de mulheres
cujas proezas domésticas pareciam desprovidas de qualquer épica. Hoje a façanha
quotidiana de cuidarmos uns dos outros precisa de homens capazes de assumirem
metade do que é invisível.”
Vallejo, I. (2024).
O Futuro Recordado. Bertrand Editora.

Uma ótima sugestão de leitura, sobretudo para os alunos do Ensino Secundário
“Faltam
cinco gerações para os homens portugueses partilharem tarefas domésticas
Estudo
"As mulheres em Portugal, hoje" conclui que entre homens e mulheres
existe ainda um desequilíbrio expressivo de rendimentos e que as mulheres estão
sempre ou quase sempre cansadas. Porquê?
Portugal
precisa de, pelo menos, cinco gerações para os homens partilharem as tarefas
domésticas em igualdade com as mulheres, que, na maioria, assumem, num estudo
revelado esta terça-feira, estar sempre ou quase sempre “cansadas”.
“O
trabalho não pago feito em casa continua a ser um assunto de mulheres” e
“dificilmente essa realidade se alterará num futuro próximo, a menos que sejam
tomadas medidas drásticas”, reflete o estudo “As mulheres em Portugal, hoje”,
coordenado por Laura Sagnier e Alex Morell, e com uma amostra de 2.428 mulheres
com idades entre os 18 e os 64 anos e residentes em Portugal, entrevistadas em
maio de 2018, através da internet.
“Se
as contribuições dos homens em relação à execução das tarefas domésticas
continuarem a evoluir ao ritmo da última geração, serão necessárias entre cinco
a seis gerações para que se alcance uma distribuição paritária das tarefas
domésticas entre mulheres e homens, nos casais em que ambos têm trabalho pago”,
determina o estudo, encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos à
consultora PRM, que esta terça-feira será apresentado publicamente, em Lisboa.
O
grupo de mulheres para quem a conciliação entre vida pessoal, familiar e
profissional é mais difícil é o das que têm filhos menores e pessoas
parceiras — para estas, o tempo despendido em trabalho não pago (6h12 em
tarefas domésticas e filhos/as) é quase tanto como em trabalho pago (7h18, em
média).
Na
verdade, para as mulheres que têm trabalho pago e filhos/as, tanto faz
viverem em casal ou sozinhas, dado que gastam as mesmas horas com tarefas
domésticas. Mais de metade do tempo que passam acordadas em casa é gasto a
cuidar do lar e da família.
Apesar
de os homens partilharem mais as tarefas relacionadas com os/as filhos/as do
que as domésticas, essa função continua a recair sobretudo sobre as
mulheres: as mães têm o triplo do trabalho com os filhos. O
contributo do pai para cuidar e educar os/as filhos/as não sofreu “nenhuma
evolução em relação à geração anterior”, destacam os autores do estudo.
Este cenário de desequilíbrio choca com a constatação, no estudo, de que as mulheres contribuem em igualdade de circunstâncias para as despesas familiares. “Enquanto a maioria dos homens continua a ter um papel muito passivo em relação às tarefas não pagas, respeitantes ao cuidado da casa e dos/as filhos/as, muitas mulheres assumiram um papel mais ativo na contribuição para as despesas familiares”, lê-se.
Mais
ainda quando, na maioria dos casais, há um “desequilíbrio expressivo de
rendimentos”: em 46% dos casais mulher-homem, ela tem menos rendimento.
Face
a esta situação, não é de estranhar que a maioria das mulheres reconheça estar
sempre ou quase sempre “cansada”, para o que contribui a “situação de
desequilíbrio permanente e sustentado” que “enfrentam diariamente”.
Dez
por cento das mulheres declaram mesmo estar “esgotadas” — estas têm uma
média de idades de 57 anos, metade tem trabalho pago e mais de um terço são
funcionárias públicas; 47% assumem que não trabalhariam se não precisassem do
dinheiro e 40% pararam de estudar quando concluíram o ensino básico.
O
estudo divide as mulheres em vários tipos, de acordo com as atitudes perante a
vida, sendo que as mais prevalecentes têm “tudo sob controlo” (18%). Se
juntarmos às mulheres “esgotadas” as “resignadas” (11%) e as “em luta” (13%),
juntas representam um terço.
Ainda
assim, 47% das mulheres portugueses dizem sentir-se felizes ou muito
felizes com a sua vida, sendo que as razões de maior felicidade são: filhos/as;
netos/as; amigas/os.
A
pessoa parceira é, porém, o fator que maior influência tem na felicidade
ou infelicidade das mulheres — entre as inquiridas, 73% têm uma pessoa
parceira e 57% vivem com ela; 71% têm um parceiro homem. “É possível afirmar
que esta investigação confirma o ditado popular ‘mais vale só do que mal
acompanhada'”, dizem os autores.
Do
outro lado, há 33% que assumem ser infelizes, sendo que os motivos de
maior infelicidade são: descendentes de anteriores relações das pessoas
parceiras; aspeto físico; trabalho pago.
“Não
se pode dizer que as mulheres se sintam particularmente realizadas com o
trabalho pago, em Portugal”, observam os autores do estudo. Entre as
inquiridas, 51% estão infelizes com o trabalho que têm e para 44% o trabalho
está abaixo ou muito abaixo das expectativas. Dois terços auferem menos de 900
euros líquidos por mês, um terço não tem vínculo contratual estável e 26%
trabalham mais de 40 horas.
As
mulheres com mais escolaridade — considerada determinante na atitude perante a
vida — têm salários mais altos (84% das filhas têm um nível de escolaridade
superior ao das mães).
O
estudo revela que “a maternidade não é garantia de felicidade para as
mulheres”, embora 82% das mães se sintam realizadas com os seus descendentes.
Das inquiridas 53% têm filhos/as (destes, 52% têm mais do que um/a) e 27% têm
intenção de ter, mas 9% nunca quiseram tal opção.
Os
autores do estudo assumem que pretendem influenciar as políticas públicas, mas
sobretudo fornecer as mulheres mais jovens com dados sobre as “implicações” que
o trabalho pago, as pessoas parceiras e os/as filhos/as terão nas suas vidas.
“A
situação vivida por muitas mulheres atualmente é insustentável, a vários
níveis”, podendo ter “um impacto significativo na natalidade, no absentismo
laboral, nos sistemas de proteção social, na educação das crianças e jovens e
nos índices de divórcio”, concluem os autores.
Cotrim, A. Lusa. (2019, fevereiro 12). Faltam cinco gerações para os homens portugueses partilharem tarefas domésticas.https://observador.pt/2019/02/12/faltam-cinco-geracoes-para-os-homens-portugueses-partilharem-tarefas-domesticas/




