domingo, 8 de fevereiro de 2026

À descoberta das Cartas de Amor de Fernando Pessoa na Biblioteca

 

Capa da mais recente edição das "Cartas de Amor" e que dá a conhecer toda a correspondência trocada entre o poeta e Ofélia

No âmbito das comemorações do Dia de S. Valentim, a Biblioteca Escolar dinamizou, em parceria com as docentes de Português, várias sessões dirigidas às turmas do 12.º ano, centradas na leitura e exploração das Cartas de Amor de Fernando Pessoa.

Estas sessões, dinamizadas pela professora bibliotecária, Filomena Lima, tiveram como principal objetivo dar a conhecer uma faceta mais íntima e humana do poeta, muitas vezes distante da imagem intelectual e fragmentada associada aos seus heterónimos. Através da leitura de excertos das cartas dirigidas a Ofélia Queiroz, os alunos foram convidados a refletir sobre a expressão dos sentimentos, a linguagem amorosa e o contexto histórico e literário em que estes textos foram escritos.

Edição de 1970 e que pertence ao acervo da biblioteca

A atividade promoveu o diálogo, a interpretação crítica e a aproximação à obra pessoana, mostrando que a literatura clássica pode ser surpreendentemente atual e próxima das vivências dos jovens. A reação dos alunos foi muito positiva, destacando-se o interesse despertado pela dimensão afetiva do autor e pela forma simples, por vezes ingénua, com que o amor é expresso nas cartas.

A Biblioteca agradece a participação de todos e reforça o seu compromisso em promover iniciativas que cruzem literatura, emoções e formação cultural.



Não deixe de ler, pelo menos, estas duas cartas que aqui lhe deixamos:


“23-3-1920

Meu querido Bebezinho:

           Hoje, com a quasi certeza que o Osório não te poderá encontrar, pois, além de ter que esperar aqui pelo Valadas, tem naturalmente que ir levar açúcar a casa do meu primo, quasi que de nada me serve escrever-te. Vão, em todo o caso, estas linhas, para o caso de sempre ser possível fazer-te chegar a carta às mãos.

            Ainda bem que a interrupção de ainda agora foi mesmo no fim da nossa conversa, quando íamos despedir-nos. Era justamente para evitar interrupções dessas que eu escolhi o caminho por onde hoje íamos. Amanhã esperarei à mesma hora, sim, Bebé?

            Não me conformo com a ideia de escrever; queria falar-te, ter-te sempre ao pé de mim, não ser necessário mandar-te cartas. As cartas são sinais de separação - sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados.

            Não te admires de certo laconismo nas minhas cartas. As cartas são para as pessoas a quem não interessa mais falar: para essas escrevo de boa vontade. A minha mãe, por exemplo, nunca escrevi de boa vontade, exactamente porque gosto muito dela.

            Quero que notes isto, que saibas que eu sinto e penso assim a este respeito, para não estranhares, para não me achares seco, frio, indiferente. Eu não o sou, meu Bebé-menininho, minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!).

            Mando um meiguinho chinês.[1]

            E adeus até amanhã, meu anjo.

            Um quarteirão de milhares de beijos do teu, sempre teu

              Fernando

 

           O Osório leva o chinês dentro de uma caixa de fósforos.

 

Lx, 23-3-1920 (1h, 20 da noite)

Meu querido amor

Não calculas a minha grande alegria quando vi o Osório e lhe perguntei se tinha alguma coisa para mim e me disse que sim. Gostava muito de receber cartinha tua meu amor, mas confesso que não tinha lá muitas esperanças, (…) mas não, o meu amorzinho é muito bonzinho (às vezes, porque outras é muito mau).

É verdade que foi bom ser já no fim da nossa conversa que houve a interrupção, se não como eu não ficaria desgostosa, mas ao mesmo tempo achei piada. Eu venho escrever-te alguma coisinha porque não posso passar já sem te escrever qualquer coisinha.

Sim meu filhinho amanhã encontrar-nos-emos à nossa hora habitual o que tomara já porque estou bem desejosa de te ver. Já tenho tantas saudades! A gente vê-se tão pouco! Tu querias estar sempre ao pé de mim pois esse era também o meu maior desejo, mas infelizmente não pode ser… por enquanto… lá virá esse tempo, o que tenho esperança não há-de vir muito longe. Depois hás-de sair pouco de casa sim? Hás-de estar muito tempo ao pé da tua mulherzinha pequenina para a indemnizares do tempo que esteve separada do seu Fernandinho querido. Depois naturalmente até te aborreces, ou não? Com que então há quarto para nós em casa de tua mãe? Está bem, então já não falta tudo, cabemos lá não é verdade? Quem me dera!

Sim as cartas são sinais de separação, e justamente por se estar separado é que se deve escrever o que não há forma de se dizer pessoalmente, mas tu escreves tão pouco… Aquela carta que escreveste quando estavas doentinho, essa sim, era grande e muito meiguinha. Sabes que tenho estado hoje muito contente?! Achei-te hoje mais meu amiguinho do que ontem, ou seja porque estivesses mais bem disposto hoje. Não te descuides com o retrato não? Dá-mo o mais depressa possível.

Olha Fernandinho, diz-me, não achas melhor eu qualquer dia dizer a minha irmã que tu já te declaraste? Que vieste ao meu encontro ou que me escreveste? Que achas? Eu acho que é melhor, porque qualquer dia ela vê-me ou vêem-me e vão-lhe dizer e depois é muito pior, far-lhe-ia mil confusões, e mesmo para ela não estar a pensar de ti uma coisa muito diferente.

Amanhã o meu amorzinho fala-me a esse respeito, sim? Achei muitíssima piada ao meiguinho chinês e agradeço-te muito. Como tu descobres estas coisas!

(…) Achei imensa, mas mesmo imensa piada à almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos, o que tu não inventas não inventa ninguém. Mas o pior é que a almofadinha agora não tem apanhado alfinetes e já tem saudades. Adeus meu querido «Nininho» (…). Agradeço o teu quarteirão de milhares [de] beijos e envio-te um cento de milhares deles muito, muito doces (ainda mais que os bombons). Já tenho saudades de ir dar um passeio até à «Índia»[2].

Adeus meu filhinho pensa muito muito, muito na tua, muito tua

Ofélia «Pessoa» (quem me dera)”

Silva, M. P. (ed.). (2019). Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Assírio & Alvim.

 



[1] O «meiguinho chinês» enviado a Ofélia, era um boneco de uma série para colecionar.

[2] Expressão em código amoroso, muitas vezes usada por Ofélia, com evidente conotação erótica, designando provavelmente alguma forma de intimidade.


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