sábado, 1 de fevereiro de 2025

Lançar sonda na Biblioteca!?

 


Sim, é verdade. Por incrível que pareça! Foram lançadas não uma, mas várias sondas, ao longo dos últimos dias, na biblioteca da Escola Básica e Secundária de Gama Barros. As grandes responsáveis por esta iniciativa foram a professora bibliotecária, Filomena Lima, e a professora de Físico-Química, Angelina Fortes, tendo ambas convidado para este desafio os alunos das turmas 1.ª, 4.ª e 5.ª do 7.º ano.

A atividade foi desenvolvida no âmbito do Projeto “Newton Gostava de Ler” uma iniciativa do Fábrica Centro de Ciência Viva de Aveiro e da Rede de Bibliotecas Escolares. O projeto associa de forma, aparentemente, inesperada a leitura à experimentação e visa a promoção do gosto e de hábitos de leitura  e da curiosidade científica.

Neste caso concreto, houve um momento inicial de leitura de alguns poemas do livro “Pó de Estrelas” de Jorge de Sousa Braga e uma breve exploração de alguns desses textos; depois de uma breve apresentação sobre a conquista e a exploração do espaço, as professoras lançaram um difícil repto aos alunos – criar uma “sonda espacial” cujo interior deveria ser constituído por um ovo cru, recorrendo a alguns materiais de uso quotidiano (balões, luvas de borracha, bolas de algodão, pedaços de esferovite, papel de alumínio…). Pretendia-se que, com um orçamento limitado a 50 milhões de Euros, cada equipa conseguisse que o ovo ficasse intacto, no final, depois de cada “sonda” ser lançada do cimo de um escadote para o chão. Foi muito gratificante ver todo o empenho dos alunos ao longo do processo de planificação e de construção da sonda e, por fim, no momento do lançamento após a contagem decrescente.

Foram várias as equipas bem sucedidas e, infelizmente, algumas que não conseguiram proteger devidamente o ovo cru que, após o lançamento, se partiu. No entanto, estão todos de parabéns pelo empenho na procura de diversas soluções para o problema. É isto que se pretende do espaço da biblioteca escolar – que seja um espaço de desafio perante o conhecimento do mundo que nos rodeia e de procura de soluções para problemas concretos do quotidiano, independentemente desse percurso ser feito através da leitura em silêncio ou em voz alta, da partilha de experiências de leitura, da escrita, ou até da experimentação, como foi o caso.


Atentos à leitura dos poemas




A "loja" para comprar os materiais necessários para a construção da sonda 

Os projetos das equipas e alguns lançamentos
 








































segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Leituras de porta em porta – 27 de janeiro de 2025 - 80 anos sobre a Libertação do Campo de Concentração de Auschwitz




Como não poderia deixar de ser, a biblioteca escolar da Escola Básica e Secundária de Gama Barros dinamizou a atividade “Leituras de porta em porta” para assinalar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Desta vez, trata-se de um excerto do livro “A Minha Amiga Anne Frank” da autoria de Hannah Pick-Goslar e relata um momento em que Hannah e Anne Frank se “encontraram” no Campo de concentração de Bergen Belsen pouco antes de Anne falecer.

Decidimos anexar ao texto uma pequena “etiqueta” onde se representa a conhecida entrada do Campo de Concentração de Auschwitz com a sua mensagem “Arbeit Macht Frei” – “O Trabalho Liberta” e uma pequena tabela com alguns dados relativos ao número de deportados e de mortos naquele campo.

Acresce referir que, contámos, uma vez mais, com a colaboração de algumas das nossas alunas monitoras, que distribuíram este texto aos docentes, assistentes administrativos e assistentes operacionais. No entanto, ele também será oferecido aos alunos de todas as turmas do 8.º ano que vão participar na atividade “Visita virtual ao mundo de Anne Frank” que vai ser dinamizada na Biblioteca Escolar no início do 2.º Semestre.

Esperemos que goste desta proposta de leitura.




“(…) Um dia, reparei que a vedação que nos separava do campo de tendas estava cheia de palha. Fiquei intrigada, mas alguém me disse que era para não nos podermos ver uns aos outros. Porém, estávamos todos sedentos de informação e as pessoas arriscavam-se a aproximar-se das vedações, desafiando a ordem direta de não comunicar com os que estavam noutros campos, num misto de solidariedade e curiosidade. Estavam sempre a chegar novos transportes que, por vezes, traziam informações novas.

            - Há mulheres neerlandesas entre os novos transportes – anunciou uma mulher nas nossas camaratas um dia em fevereiro. – Ouvia-as a falar em neerlandês.

            Isto pôs-nos a todos em alvoroço. Todos queríamos saber se havia familiares ou amigos do outro lado da vedação – pessoas que tínhamos visto pela última vez em Westerbork ou nas nossas cidades natais. As mulheres do nosso campo começaram a aproximar-se da vedação cheia de palha, chamando em neerlandês e trocando informações rápidas. Dali a pouco, uma mulher que tinha conhecido a minha família em Amesterdão veio à minha procura. Eu nunca, jamais, teria sonhado com o que ela me contou. Anne Frank encontrava-se entre as mulheres e raparigas neerlandesas do outro lado da vedação.

            -A Anne está aqui? – perguntei-lhe, repetindo as suas palavras, mas sem as compreender minimamente naquele momento. – A Anne está a poucos metros de distância? Aqui? Aqui em Bergen-Belsen?

            A minha mente tentou processar esta informação. Parecia impossível. Anne encontrava-se na Suíça, segura, quente, a viver numa casa aquecida, a frequentar a escola, sem dúvida a partir o coração de algum rapaz e a gozar a vida com a família, a avó e os primos. Anne tinha sido poupada a este tormento. Era o que eu acreditava ser verdade desde o dia em que fui a casa dela e a encontrei vazia(…) naquele dia quente e incrivelmente distante de julho de 1942. Estávamos agora em fevereiro de 1945. Como é que Anne tinha vindo parar aqui? E se ela fazia parte dos que tinham chegado de transporte, isso significava que tinha estado num campo de concentração na Polónia. Nada disso fazia sentido para mim.

            Mas se Anne se encontrava mesmo a poucos metros de mim, então como é que eu não haveria de tentar encontrá-la, mesmo que pudesse ser castigada por isso. Havia tanto para lhe perguntar e tanto para contar. Estava tão entusiasmada com a possibilidade de a ver que o meu coração batia com mais força no meu peito. Depois, senti imediatamente o meu choque transformar-se noutra coisa completamente diferente: uma tristeza profunda e pesarosa. A minha amiga, a minha animada e inteligente Anne. Se ela estava aqui não estava livre. Tinha sido uma bênção pensar que ela se encontrava na Suíça. Ela era realmente a única amiga com quem não tinha de me preocupar, para além de Jacque em Amesterdão. (…)

            Tinha de tentar vê-la. Normalmente, eu não corria riscos. A minha segurança e a de Gabi eram o mais importante. Mas como é que eu deixaria de o fazer? Por isso, decidi sair das minhas camaratas antes do recolher obrigatório das nove horas dessa noite. (…)

            O caminho cheio de lama estava escorregadio e concentrei-me em não cair. Enquanto me aproximava cuidadosamente da vedação, ainda estava a tentar digerir o facto de poder vir a ver Anne em breve. Continuava inundada pela descrença; era difícil deixar de lado as minhas imagens de Anne na Suíça, tão longe da doença e da morte que via aqui.

            Eu sabia muito bem que havia torres de vigia com guardas das SS munidos de metralhadoras e que eles também patrulhavam, com pastores-alemães à trela, de ambos os lados da vedação. As vedações rodeavam-nos e dividiam-nos. Não me tinha esquecido de que o castigo por falar com os prisioneiros do outro lado da vedação podia ser a morte. Estava a tremer de frio e de medo. Mas também pensava em Anne e os meus pés continuaram a andar durante os cinco minutos que demorei a lá chegar. (…)

            - Olá? Olá? – chamei numa voz suave. – Está aí alguém?

            Uma voz respondeu-me, também em neerlandês.

            - Sim?

            Parecia-me familiar.

            - O meu nome é Auguste van Pels – ouvi a mulher dizer.

            Sra. Van Pels! Ela e o marido e o filho Peter iam por vezes visitar a família Frank. Eles viviam na nossa rua e eu sabia que o marido dela trabalhava com o Sr. Frank.

            - É a Hannah. Aqui é a Hannah Goslar – disse-lhe eu.

            Ela respondeu logo:

            - Deves querer falar com a Anne. Eu trago-a. A Margot também está cá. Mas está demasiado doente para vir. (…)

            Sentia o meu coração bater de tal maneira no peito que quase me surpreendi por conseguir ouvir a vozinha calma que me chamou:

- Hanneli? Hanneli, és mesmo tu?

- Sim, sim, Anne, sou eu! – respondi.

Desatámos logo a chorar, com a mesma chuva fria a cair sobre nós, em lados opostos desta maldita vedação. Não tínhamos muito tempo, por isso, entre lágrimas, consegui perguntar:

- Como é que estás aqui? Porque não estás com a tua avó na Suíça?

Ela contou-me que não tinham chegado a ir para a Suíça. Aquela história tinha sido uma farsa. Reparei que a voz dela estava mais fraca, mais débil. Já não era o chilrear ruidoso e confiante que eu conhecia. (…)

- Cortaram-me o cabelo – disse ela, com a voz ainda cheia de incredulidade. Senti o travo da sua indignação. O seu cabelo escuro e sedoso. Estava sempre a escová-lo, a fazer experiências com rolos; era a sua característica preferida. E estava gelada, disse-me ela, vestida apenas com trapos. Estremeci só de pensar nela totalmente exposta ao vento gelado e à chuva que soprava à nossa volta. Margot estava doente com tifo, demasiado doente para sair da cama, contou-me. Deu-me a terrível notícia de que os seus pais tinham morrido. De certeza que morreram gaseados, disse ela.

Mais palavras que não faziam sentido para mim. Gaseados? O que significava isso? Eu tinha visto pessoas morrerem de fome e de doença em Bergen-Belsen, e sabíamos que tentar fugir – ou até mesmo falar uns com os outros desta forma – podia significar levar um tiro, mas morrer gaseado? (…)

Era demasiado para compreender. A voz de Anne pertencia a um mundo distante dali, à nossa praça Merwedeplein, onde passávamos as tardes perdidas no mundo das brincadeiras e das nossas imaginações, onde nunca passávamos fome e dormíamos em camas quentes, aconchegadas por pais amorosos. Mas, naquela voz que eu conhecia tão bem, ela estava a dizer que as pessoas em Auschwitz eram mortas por gaseamento, incluindo os seus próprios pais. Como era isso possível? (…)

- Não tenho ninguém. - disse ela, palavras acutilantes para mim.

Agora estávamos as duas a chorar. Duas raparigas aterrorizadas sob um céu noturno encharcado de chuva, separadas por esta barreira de palha e arame farpado. Como é que as coisas tinham chegado a este ponto?

- Estou a morrer de fome. Tens comida? Podes trazer-me alguma? – perguntou Anne.

- Sim, vou tentar – respondi, interrogando-me, à medida que as palavras saíam, como é que conseguiria fazê-lo.

- Volto daqui a duas noites. Espera por mim – disse eu.

Ela disse que o faria. Despedimo-nos apressadamente e com tristeza. Olhei em redor, examinando cuidadosamente a periferia da vedação à procura de guardas, antes de voltar para as camaratas. Sentia o meu corpo todo a vibrar com a adrenalina de voltar a encontrar Anne. Mas também tinha o coração apertado. Ela estava tão abatida, uma sombra da Anne que eu conhecia.

- Hanneli, graças a Deus que voltaste – disse a Sra. Abrahams, correndo para mim quando entrei nas camaratas.

- É a Anne, é mesmo a Anne – disse-lhe a ela e a um pequeno grupo de mulheres que se juntaram para ouvir mais. – Mas está a tremer de frio, sem nada para vestir para além da roupa esfarrapada da prisão, e mais esfomeada do que qualquer uma de nós aqui no Campo Sternlager.

Falei-lhes mais sobre Anne, dizendo-lhes que era a pessoa mais dinâmica e confiante que eu conhecia. As minhas amigas das camaratas riram-se quando lhes contei o que a minha mãe costumava dizer para brincar com ela: «Deus sabe tudo, mas a Anne sabe ainda mais.» Porém, agora, ela estava tão fragilizada, tão diferente, expliquei. Reparei na forma como olhavam para mim: com tanta empatia e tristeza nos olhos. Imaginei que talvez estivessem a pensar nas suas melhores amigas perdidas no meio desta guerra terrível, perguntando-se onde estariam.

Tinha de regressar à vedação, a Anne, com alguma comida, expliquei. Mas como é que iria conseguir levar-lhe alguma coisa?

- Não te preocupes, vamos certificar-nos de que consegues levar-lhe alguma coisa – disse uma mulher.

E depois outras voluntariaram-se para ajudar também. Elas tinham tão pouco para si e nem sequer conheciam Anne. Fiquei impressionada com a sua bondade. Nos dias que se seguiram, passaram pelo meu beliche com as suas ofertas. As mulheres contribuíram com parte do que tinham poupado dos nossos pequenos pacotes da Cruz Vermelha. Aqui, um pão era dividido em pedaços de quatro centímetros, partilhado por várias famílias e tinha de durar dois dias. Mas, mesmo assim, estas mulheres davam o que podiam.”

Pick-Goslar, H. (2023). A Minha Amiga Anne Frank. Bertrand Editora.


"Rosa Branca" promove reflexão sobre a Guerra, a Paz, a Tolerância... na Biblioteca Escolar

 

 O dia 27 de janeiro – Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto - foi assinalado com várias atividades na Biblioteca Escolar da Escola Básica e Secundária de Gama Barros.

As turmas do 5.º ano participaram na leitura do belíssimo livro da autoria de Roberto Innocenti, “Rosa Branca”. A professora bibliotecária, Filomena Lima, recorreu sobretudo às ilustrações do livro, cuja imensa qualidade e potencial de informação que veiculam permitem, não só contar a história da jovem Rosa Branca, mas também abordar algumas questões relacionadas com a 2.ª Guerra Mundial  e, em particular, com a realidade dos Campos de Concentração e com o Holocausto.  A história vai fluindo seguindo o olhar d@s alun@s em relação a cada uma das ilustrações. No entanto, apesar das várias dezenas de olhares e de perspetivas sobre o mesmo livro, há alguns denominadores comuns – o poder destrutivo das guerras sobre as estruturas e as pessoas, a importância da solidariedade e do altruísmo do ser humano manifestados neste livro na ajuda prestada por Rosa Branca a todos aqueles que se encontravam no Campo de Concentração, com risco da sua própria vida.

@s alun@s mostraram-se muito interessados nesta bela história. Não posso deixar de referir os belos momentos de partilha e de emoção profunda que vivemos mas devo, também, sublinhar a sensibilização feita para a importância da PAZ num mundo cada vez mais turbulento e onde os ódios e os conflitos dominam as Redes Sociais e os Media reflexo de um mundo cada vez mais violento e intolerante.    








domingo, 3 de novembro de 2024

"Leituras de Porta em porta" - Dia da Biblioteca Escolar

 


Imagem da atual Biblioteca de Alexandria 
Fonte: Viator. https://www.viator.com/pt-PT/tours/Alexandria/half-day-tour-to-The-Bibliotheca-Alexandrina-Library-of-Alexandria


“Alexandria, o farol do saber”

«Até Roma atingir o apogeu, Alexandria, fundada por Alexandre em 331 a.C., foi a maior e mais populosa cidade do Mediterrâneo. Durante o primeiro século e meio da sua existência, assumiu a condição de centro cultural graças ao patrocínio dos Ptolomeus, os faraós gregos que fundaram o Museu e a sua Biblioteca. O Museu e a Biblioteca faziam parte do complexo palatino juntamente com um observatório astronómico e um jardim botânico.

“Não há nada que não figure entre os seus tesouros”, assegurava um ditado da época. “Ginásios, espetáculos, filósofos distintos, o recinto sagrado dos deuses, o rei, homem generosíssimo, e além disto, o Museu!” Muitos decerto admiraram as gigantescas proporções do farol e de outros edifícios de Alexandria ou passearam pela ampla avenida do Canopo e pelos seus mercados de sedas e especiarias. Poucos, em contrapartida, alguma vez colocaram pé no Museu (o “Templo das Musas”), já que esta seleta instituição se encontrava dentro do palácio real, que ocupava todo o bairro, e a sua entrada era restrita.

          Sabia-se que no Museu existia uma grande biblioteca, onde se acumulavam milhares de rolos de papiro e que ali vivia uma comunidade de sábios. (…) Tanto Ptolomeu I, o fundador do Museu, como o seu filho Ptolomeu II agiram com a mesma vontade de domínio que empurrara Alexandre para a exploração dos confins do mundo. No entanto, em vez de enviarem tropas para o Egito, estes soberanos enviaram emissários comerciais com as bolsas cheias de ouro para comprar livros. Chegaram mesmo a confiscar no porto de Alexandria o que não conseguiam comprar e que queriam incluir nos fundos da biblioteca. Ao mesmo tempo, filósofos, eruditos e homens de ciência de todo o mundo grego aceitaram o convite para integrarem a comunidade do Museu, no palácio real. Livres de preocupações materiais, já que nem impostos tinham de pagar, “adoravam as Musas” em benefício dos seus generosos patronos. Os poucos que entravam no Museu sabiam que este tinha diversas dependências: salas de conferências, laboratórios, parques, pórticos, êxedras… já para não falar da famosíssima Biblioteca e do refeitório onde os residentes comiam e celebravam banquetes juntos.

          Porém, dentro do Museu, a vida não registava a tranquilidade absoluta que se esperaria de um espaço de leitura. Uma sátira da época comentava que “no Egito, o de muitas raças”, criavam-se, “alguns rabiscadores de livros que discutem sem fim na gaiola dos pássaros do Museu”.

          De facto, Zenódoto de Éfeso, o primeiro diretor da biblioteca, talvez fornecesse a sensação de que flutuava pelas prateleiras e entre os rolos de papiro que tentava colocar seguindo uma ordem alfabética – um sistema inventado por ele -, enquanto dezenas de colaboradores, de estilete em riste, escreviam o texto da sua nova edição corrigida das obras de Homero.(…)

          Os membros do Museu tinham também de agir como conselheiros dos monarcas e educavam os príncipes da casa real antes da coroação. Zenódoto, por exemplo, foi tutor real de Ptolomeu II, e Apolónio de Rodes, o segundo diretor da biblioteca, de Ptolomeu III. Os membros do Museu podiam também integrar o séquito de outros membros da realeza, como Eratóstenes de Cirene, o terceiro diretor da Biblioteca, que foi confidente da rainha Arsínoe III e até lhe escreveu uma biografia.

          O Museu era basicamente um centro de investigação e não uma universidade com ensino regular, embora por vezes incorporasse jovens promessas aos quais atualmente chamaríamos “assistentes de investigação”. É verdade que, com o tempo, os membros do Museu levaram a cabo uma espécie de ensino público, fosse sob a forma de conferências, de simpósios ou de banquetes nos quais o rei também pontualmente participava.

A festa das Musas

          A melhor ocasião de relacionamento entre o Museu e a população de Alexandria era o festival organizado periodicamente em honra das Musas e do deus Apolo. Era constituído por jogos e concursos literários, com os respetivos prémios e honras para os vencedores.

Nestes certames, também podiam participar estrangeiros com talento que quisessem dar a conhecer as suas composições literárias. Era um evento internacional, e os membros do Museu eram convidados para o júri. Conta-se que, para uma das edições deste festival, Ptolomeu IV escolheu seis jurados da sua confiança, mas faltava um sétimo. Então, o soberano dirigiu-se aos sábios do Museu e estes apontaram para um jovem entre eles, de seu nome Aristófanes, que “com entusiasmo e uma pontualidade extraordinária, não fazia mais do que ler e reler todos os livros da biblioteca, seguindo uma ordem sistematizada”. (…)

Aristófanes dedicara-se a ouvir as explicações do bibliotecário Zenódoto desde criança e, como jovem prometedor, foi discípulo do poeta Clímaco. A escolha de Aristófanes como membro do júri estava, assim, plenamente justificada por se tratar de uma das estrelas emergentes no firmamento científico de Alexandria.

          Os poetas começaram a recitar as suas composições em voz alta, e o público presente assinalava aos juízes, com aplausos ou assobios, os que eram do seu agrado e aqueles que não o eram. Quando foi pedido aos juízes o seu veredito, seis concederam o primeiro prémio ao poeta que melhor impressão causara no povo, mas Aristófanes deu como vencedor precisamente o poeta que menos entusiasmo gerara nas massas.

          O rei e os outros juízes indignaram-se, mas Aristófanes indicou-lhes tranquilamente que o seguissem até à biblioteca do Museu. Já na sala, Aristófanes começou a retirar das estantes um grande número de rolos de papiro e foi comparando um a um com os poemas que ouvira no festival. Os poetas vencedores tiveram de confessar que tinham copiado as suas composições. Ptolomeu IV ordenou que os plagiadores fossem punidos e despediu-os da forma mais humilhante. Em contrapartida, cobriu Aristófanes de presentes e nomeou-o diretor da Biblioteca.

          A partir do seu novo cargo, Aristófanes levou a cabo um prodigioso trabalho no campo da crítica literária e, com as suas edições dos dramaturgos e líricos gregos, permitiu que a filologia alexandrina chegasse ao apogeu.

Curiosidades…

O Engano dos Atenienses

 O médico Galeno, que no século II d.C., viveu durante cinco anos em Alexandria, descreveu o modo como Ptolomeu II assegurou cópias oficiais das obras de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, os grandes autores trágicos gregos, que estavam guardadas em Atenas. Os Atenienses emprestaram-nas ao rei para que as copiasse mediante pagamento prévio de uma fiança de quinze talentos de prata, o que pressupunha 390 quilogramas deste metal precioso. “Porém – conta Galeno -, uma vez copiados no melhor papiro, o rei ficou com os que recebera dos atenienses e enviou-lhes os que copiara, pedindo-lhes que ficassem com os quinze talentos e recebessem os novos livros em vez dos velhos que estes lhe tinham entregado.”

          “E assim – terminava Galeno -, nada podiam aqueles fazer, já que tinham em todo o caso recebido a prata com essa condição. Receberam os novos livros e ficaram com a prata.”

 Em Voz Alta, Por Favor

          Se existe algo que caracteriza as nossas bibliotecas é o silêncio, tão necessário para nos concentrarmos na leitura. Mas a leitura silenciosa é uma novidade medieval: na Antiguidade, lia-se em voz alta. Por essa razão, as bibliotecas não tinham salas de leitura como as atuais. Em Alexandria, o habitual era ouvir vozes continuamente: as dos eruditos que liam, absortos, ou dos que passeavam ou se sentavam a conversar e a trocar ideias no perípatos ou galeria coberta do Museu que Estrabão mencionou, ou na êxedra (um espaço semicircular com bancos corridos) que este autor também citou.

          Os livros (…) eram feitos de papiro (…) e tinham a forma de rolos e o texto era colocado em colunas. O leitor segurava-os com as mãos: quando acabava de ler uma coluna de texto, desenrolava com a mão a seguinte, enquanto a outra enrolava o trecho que terminara. 

Sánchez. J. P. (2024). A Vida dos Sábios – A Biblioteca de Alexandria. História – National Geographic, (19), 50-59.

Alguns registos da atividade "Leituras de Porta em porta" com as Alunas Monitoras da BE/CRE Mélanie e Beatriz. Muito obrigada a ambas. 






Dia da Biblioteca Escolar - "Bibliotecas escolares: a ligar comunidades!"

 


Todos os anos a IASL (International Association of School Librarianship) lança o desafio às bibliotecas escolares (BE) de todo o mundo – desenvolver ao longo do mês de outubro um conjunto de atividades que visem dar a conhecer o trabalho que se desenvolve na Biblioteca Escolar, evidenciando que a biblioteca não é apenas um serviço da escola mas sim um local nevrálgico da mesma.

Em Portugal, instituiu-se que a quarta segunda-feira do mês de outubro seria o Dia, por excelência, dedicado às Bibliotecas Escolares.

Este ano, o mote para celebrar este mês foi: “Bibliotecas Escolares: a ligar comunidades”.

Na BE  da Escola Básica e Secundária de Gama Barros, o mês de outubro foi, na verdade, muito preenchido e ilustrativo da dinâmica habitual deste espaço, agora renovado, entre as Visitas Orientadas à BE para todos os alunos do 5.º ano, as atividades em parceria com a disciplina de Ciências Naturais – “Rochas e Solos” -, o lançamento do Projeto “Weiwwe(r)be” com a dinamização  das sessões de Literacia da Informação para algumas turmas dos Cursos Profissionais e do 10.º ano dos restantes Cursos, e de um novo “Clube de Leitura”, e a atividade “Bem-vindos ao Nosso Mundo”, concebida pelas Professoras Bibliotecárias do Agrupamento – Filomena Lima e Gracinda Silva - especificamente para assinalar o mês das BEs.

No dia 28 de outubro, Dia da Biblioteca Escolar, na BE/CRE da EBS Gama Barros, dinamizamos a atividade “Leituras de porta em porta” - com um texto sobre a Biblioteca de Alexandria, dando conta da sua importância enquanto polo cultural no Mundo Antigo -, tivemos a presença de três turmas do 6.º ano para participar na atividade “Bem-vindos ao nosso mundo” e, no final da tarde, houve um pequeno lanche de confraternização, oferecido pela professora bibliotecária, para os alunos do 6.º 6.ª.

Sobre cada uma destas atividades daremos conta brevemente, aqui no nosso blogue.


Momento da confraternização dos alunos e das alunas do 6.º 6.ª

Halloween na Biblioteca Escolar

À semelhança de anos letivos anteriores, a equipa da Biblioteca Escolar/Centro de Recursos Educativos da Escola Básica e Secundária de Gama Barros não deixou passar em branco o, cada vez mais popular, Dia das Bruxas. Este ano, o cenário criado inspirava-se numa “mesa de trabalho”, verdadeiramente assustadora, da nossa Bruxa. Desde o panelão de ferro, passando por vários instrumentos de laboratório, gentilmente cedidos pela professora de Física e Química Angelina Fortes, que colaborou na conceção do cenário, estavam, também, expostos vários ingredientes, indispensáveis para a concretização de feitiços assustadores – patas de grifo, um coração de Ogre, Morcegos chifrudos, Acromantulas, veneno de aranha e outros.

Sob o olhar atento da bruxa, os alunos do 5.º ano foram recebidos pela Professora bibliotecária, Filomena Lima, que, para além de partilhar a origem da palavra Halloween, apresentou uma versão verdadeiramente assustadora da Lenda de Jack O’Lantern. No final, ainda houve tempo para um “Spooky Bingo” durante o qual se aproveitou para consolidar e aprofundar algum léxico, em Inglês, relacionado com o Halloween.

A professora de Inglês, Clara Afonso, cujas turmas participaram nesta atividade, ainda distribuiu alguns “treats” a todos os participantes.

Foram, na verdade, dois dias muito animados e muito divertidos!!!