terça-feira, 23 de outubro de 2018

"História Engraçada de uma Biblioteca Abandonada" na BE/CRE



No âmbito das comemorações do Dia Internacional da Biblioteca Escolar, que se assinalou ontem, dia 22 de outubro, um grupo de alunas do 7.º 7.ª fez uma leitura em voz alta de “História engraçada de uma biblioteca abandonada” de Carlos Nuno Granja.
Depois de um trabalho preparatório orientado pela professora de Português, Fernanda Gomes, e pela professora bibliotecária, Filomena Lima, durante o qual este grupo de alunas foi apresentando várias sugestões, chegou o dia da apresentação. A turma escolhida para ouvir a leitura do texto foi o 5.º 6.ª. Esta turma foi acompanhada à biblioteca pelo professor de Português, José Gama.
Apesar de algum nervosismo, a mensagem passou e os meninos e meninas do 5.º 6.ª perceberam que as bibliotecas representam um manancial de conhecimento, são espaços de vida, de cultura e de saber a que todos deveriam ter acesso, e que os livros funcionam como um verdadeiro alimento para os humanos. Afinal, como se refere na história, os livros falam-nos “ de fantasia, do tempo, do sol e da lua, das fadas e das bruxas, das personagens e dos planetas, dos beijos e dos abraços, da família e dos amigos, das cores e do mar, do céu e das nuvens, das tardes e das noites, do mundo e da natureza, das paisagens e das viagens.”



 Leiam o texto adaptado aqui:




“A História Engraçada de uma Biblioteca Abandonada”


Ouviu-se esta história durante muito tempo. Diziam os aldeões e os povos ancestrais que eram palavras de vento trazidas pelos temporais. Coisas inventadas nas cidades sem qualquer pingo de verdade.
E se alguém acreditava, oh que coitados, sofriam de loucura brava! (…)
E assim, de boca em boca, se fez de várias versões uma história encantadora que nunca teve gravações.
Foi avançando com o tempo esta história que nunca foge, andou por vários continentes até chegar aos dias de hoje. (…)
Será que esta história ia deixar de ficar na memória?
Um dia tudo mudou, já não encontrávamos palavras a viajar de boca em boca, a cada dia que passava havia menos gente louca. (…) Tudo acabou assim da noite para o dia, não mais se soube dessa história cheia de fantasia.
Mas numa pequena cidade do interior de um país muito pequeno algo estava para acontecer. As pessoas estavam tristes e andavam sempre de dedos em riste, acusavam e gritavam, depois desistiam e choravam. Havia muita tristeza no ar e acreditava-se que as gotas que caíam no mar resultavam dos vapores das lágrimas de toda a povoação. Parecia não haver solução.
O Presidente da Câmara não abandonava o seu gabinete, despachava ordens usando um bilhete. Já nem aparecia nas inaugurações e andava perdido nas desilusões.(…)
Era uma cidade infeliz, tinha em ruínas um chafariz, um descuidado tribunal, os médicos e enfermeiros lá tratavam o que podiam dos doentes no hospital. Na escola ainda resistiam professores e alunos como se vivessem num mundo diferente. (…) Como podiam ficar tristes toda a noite e todo o dia?
Inventaram logo maneira de medir risadas ao centímetro e teriam de ficar sisudos mal saíssem do perímetro. (…)
As crianças não percebiam a razão deste mundo oculto. Porque caía nesta tristeza qualquer sorridente adulto?
Os anos foram passando na mais profunda escuridão, não havia abraços e beijos, ninguém abria o coração.
Encerraram os jardins e museus, cafés e esplanadas, as janelas das casas também ficavam fechadas.
Um dia uma menina curiosa, de nome muito formoso, aventurou-se pelas ruas para perceber comportamento tão misterioso. Não lhe agradou o que viu, muito menos o que sentiu, ficou logo com vontade de trazer o sol para o seu lado, pois todos os adultos traziam o rosto muito cerrado.
Andou de porta em porta e foi espreitando as janelas, famílias inteiras à mesa e gatos tristes lambendo as tigelas. E num dos pátios da pequena cidade viu uns miúdos levados da breca, ficava mesmo ao lado da abandonada biblioteca. Estranhou essa felicidade inteira mesmo junto a um local disponível para tanta brincadeira. Mas terá isso escapado às leis do presidente da câmara?
Dalila então pensou que por estar ao abandono local tão aconchegante, ficara então afastado das lembranças daquela gente.(…)
 Pôs-se logo a confirmar, ainda bem que o edifício não ficava no centro, despertou a curiosidade de abrir a porta e ir para dentro. Tinha uns cortinados já sujos, até se notava o pó, algumas fissuras atravessavam as paredes de um lado ao outro. Que pena! Metia dó!
Do telhado nem palavras, com telhas mesmo muito envelhecidas. Muitas estavam rachadas, outras, completamente partidas. Chegada bem perto da porta, pôs a mão na maçaneta. Sentiu um arrepio na pele e sentiu-se poeta. Tanto passado ali estava, histórias de encantar. Dalila ouviu um ranger, mas começou a sonhar (…)
Abriu a boca de espanto, deu vários suspiros seguidos. Nem queria acreditar que ali estivessem tantos livros! (…) Arrumados em prateleiras carregadinhas de teias. Aranhas para ali e ratos para acolá, numa das mesas pousado um bule para o chá. (…) Um balcão enumerado até ao três, cartões de requisição com a menção de cada mês. Algumas cadeiras caídas e outras que estavam de pé, junto a mesas cheias de histórias, com dragões, dinossauros e bruxas, anões, gigantes e fadas.
A Dalila tão entusiasmada esqueceu qualquer medo que pudesse ter à entrada. Não havia fantasmas, nem lobos maus. Imaginou a Capuchinho Vermelho relaxada a beber cacau. A Bela Adormecida foi beijada por um anão. A Cinderela comeu uma maçã e não lhe fez comichão. Talvez visse a Alice que talvez ali tivesse encontrado o seu País das Maravilhas. Esqueceu toda a tristeza, de tal forma que correu sem demora para a prateleira que estava mais perto. Eram tantos os livros que não sabia qual escolher ao certo. (…) A Dalila tinha a certeza que a beleza de um povo estava no seu conhecimento. UM LIVRO É ALIMENTO!
Estava encantada e fazia planos para esta sua nova morada. Tantas horas que poderia ali passar. E trazer os amigos para estudar. Bastava uma limpeza geral com um detergente de letras, muito, mas muito especial. Um espanador de palavras que as pusesse mais juntas e arejadas. E um pano para lombadas que as tornasse mais brilhantes. Assim tudo poderia voltar a ser como era dantes. Aquela biblioteca tão grande já tivera os seus momentos fabulosos. Filas e filas para a requisição de livros, leitores em todas as cadeiras, capas deitadas nas mesas apelando à leitura. Crianças que faziam das histórias as suas brincadeiras. Personagens que estavam bem vivas e felizes para serem lidas.
E Dalila não demorou a colocar mãos à obra. (…) Cantarolava tão alto que os meninos no pátio pararam de dar pontapés na bola. Acharam uma curiosidade por ouvirem a felicidade, coisa que na verdade já andava há muito afastada daquela cidade. Passou a biblioteca a pente fino, de tal maneira que ficou com um ar divino. Parecia um céu com nuvens brancas e suaves. (…)
Pegou num livro grosso, daqueles mais elegantes, embrenhou-se na leitura, numa atitude de gigante. Como é que foi possível, com tantos livros desanimados, que aquele local permanecesse abandonado? (…)
Pousou o livro com elegância, como se fosse um ser vivo, depressa ouviu um ai. Arregalou bastante os olhos à procura de movimento. Mas viu apenas livros e prateleiras em silêncio.
- Nada temas, minha amiga. Sou um amigo de jeito, vítima de preconceito – afirmou a sua companhia.
Ouvir palavras de um livro. Ouvir um livro a falar.
- Há muito que aqui estamos na mais completa escuridão, à mercê do pó e dos ratos. Somos muitos, mas em enorme solidão!
Dalila pulou da cadeira e desatou a correr pela biblioteca fora, como se o livro fosse um terrível fantasma.(…) E correu desenfreada entre prateleiras e cadeiras, quase que escorregava, quando num dos corredores lhe apareceu uma fada.
- Mas o que é isto? Livros que falam e fadas verdadeiras?! – duvidou a Dalila assustada. (…)
E ali estava Dalila naquela biblioteca abandonada carregada de livros que falavam e de personagens que saltavam para a realidade.
O que aconteceu depois na cidade?
O rebuliço terminou quando Dalila percebeu que não havia razão para o susto e para os livros não era justo. Uma criança não podia fugir dos livros e das suas personagens.
Sentou-se no chão muito cansada e logo por dezenas de livros ficou rodeada. Todos contaram as suas histórias e descreveram as suas memórias. O que antes era medo passou depois a ser segredo.
Foi neste ambiente que se ouviu um grande estrondo. (…) Eram palmadas fortes na porta e vozes muito zangadas. Regressaram os livros para as prateleiras e para as histórias as fadas. Toda a emoção que estava no ar dissipou-se de par em par. A alegria de Dalila deu lugar a uma grande tristeza.
Era o presidente da câmara, mais uma dezena de polícias, todos com aspeto tristonho e meio atarantados.
- Quem teve tal atrevimento de abrir as portas ao conhecimento? – questionou o presidente da câmara envolto em fúria.
Entrou o presidente, depois entraram os polícias, os professores, os médicos e os enfermeiros.(…)
- Fechem as janelas e baixem as cortinas. Tragam de volta os ratos e as aranhas. Quero isto cheio de pó e escuridão. Não queremos viver de novo tempos de ilusão! – ordenou o presidente da câmara.
Deu meia volta e saiu porta fora (…). E nesse preciso instante, uma voz ouviu-se ao fundo (…). Era o livro mais antigo que não conseguiu cumprir o prometido: o de nunca se mostrar aos homens…
E o livro falou da fantasia, do tempo, do sol e da lua, das fadas e das bruxas, das personagens e dos planetas, dos beijos e dos abraços, da família e dos amigos, das cores e do mar, do céu e das nuvens, das tardes e das noites, do mundo e da natureza, das paisagens e das viagens.
Todos ficaram espantados, saídos de um outro mundo e de sorrisos rasgados. Sentaram-se todos no chão, puxaram livros à escolha e foram viajando de folha em folha. Regressaram então as gargalhadas e os abraços. Voltaram para as suas casas com livros debaixo dos braços, dos mais finos aos calhamaços.
Dalila passou a ir conversar todos os dias com os seus amigos de papel. Todas as crianças da cidade passaram a fazer o mesmo.
A pequena cidade do interior de um país muito pequeno voltou a ter pessoas sorridentes. A biblioteca estava agora de porta aberta vinte e quatro horas por dia.


Granja, Carlos Nuno, in A História Engraçada de uma Biblioteca Abandonada. Guimarães: Opera Omnia, 2016.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

22 de outubro - Dia Internacional da Biblioteca Escolar


Foi um dia de festa na Biblioteca da Escola Básica e Secundária de Gama Barros. As mensagens foram-se sucedendo no painel “Gosto da Biblioteca porque…”: “…há muitos livros para ler”; “…na biblioteca há muitas atividades fixes”; “…posso ler, fazer os TPC, estudar, ver filmes e usar os iPads!”; “…aprende-se muitas coisas novas e interessantes”; “…as pessoas da biblioteca são muito simpáticas”… E muitas, muitas outras mensagens. Pudemos apreciar o entusiasmo dos mais pequenos frente aos iPads que hoje, numa “iPad Hour” alargada, estiveram disponíveis para livre utilização, mas sempre sob o olhar atento da Assistente Operacional e da Professora Bibliotecária. Durante a manhã, realizaram-se mais duas visitas orientadas à exposição que está patente no átrio exterior à BE/CRE – “Livros que fizeram História”. Para terminar, não resistimos, para memória futura, a capturar alguns momentos de genuína alegria vividos pelos alunos na biblioteca com um engraçado “Photo Booth”.
Quem requisitou livros teve, ainda, direito a um marcador de livro criado na nossa biblioteca por alguns professores da equipa.
Também para assinalar o Dia Internacional da Biblioteca Escolar, a professora bibliotecária ofereceu a todos os professores, assistentes operacionais e administrativos um texto de Walter Hugo Mãe, “O rapaz que habitava os livros”, e aos alunos de 5.º ano, a “História Engraçada de uma Biblioteca Abandonada” de Carlos Nuno Granja.