No âmbito da
programação da Biblioteca Escolar para assinalar o Dia Internacional em Memória
das Vítimas do Holocausto, celebrado a 27 de janeiro, realizou-se mais uma
edição da atividade “Leituras de porta em porta”.
O texto selecionado foi
um excerto da obra “Holocausto”, de Irene Flunser Pimentel, que dá a conhecer a
forma como Hitler e as SS planearam a política antissemita do regime nazi, bem
como as diferentes mutações que a chamada “Solução Final” foi sofrendo ao longo
do tempo, sempre orientada para um único e trágico objetivo: o extermínio do
povo judeu.
À semelhança de edições
anteriores, esta atividade — que prevê a distribuição de uma proposta de
leitura junto da comunidade docente, das assistentes administrativas e dos
assistentes operacionais — contou com a colaboração empenhada de um grupo de
alunos e alunas monitoras da Biblioteca Escolar. Com grande sentido de
responsabilidade e dedicação, deram o seu melhor para fazer chegar esta
proposta de leitura a toda a comunidade educativa, contribuindo para a
preservação da memória e para a reflexão crítica sobre um dos períodos mais
sombrios da História.
“Na muito abundante
historiografia sobre a Shoá tende-se a considerar que o mecanismo do extermínio
dos judeus procedeu por etapas, ou estádios, num processo em espiral de
radicalização de violência imparável. Esta interpretação prende-se com vários
motivos, entre os quais com o facto de Hitler nunca ter referido diretamente a
«Solução Final» e o da existência de tendências rivais e contraditórias
relativamente àquela no regime. Parece hoje pacífico concluir que não existiu um
programa predeterminado e consistente de genocídio e, mesmo que tenha havido
uma espiral de radicalização, a destruição física dos judeus não seria
previsível antes de meados de 1941, ao ser preparada a chamada Operação
Barbarossa, de invasão da URSS.
A chamada – pelos nazis - «Solução
Final do problema judaico» terá surgido como solução circunstancial em resposta
às dificuldades do regime. Pioneiro na interpretação de um processo por etapas
que levou à Shoá foi o historiador Paul Hilberg, que enumerou os cinco estádios
da política antissemita nazi:
1. Definição dos judeus e a
proibição de certas atividades e profissões.
2. Expropriação.
3. Concentração e fecho em guetos.
4. Deportação.
5. Genocídio.
Mais tarde, o historiador Yehuda Bauer também considerou que a política nazi relativamente aos judeus se desenvolveu por estágios, o que não quer dizer que num determinado momento de viragem de um para o outro não tivesse havido a consideração de outras opções, sempre incluídas na ideia de que os judeus não tinham lugar, não só na Alemanha, como na Europa e no mundo. Consoante os períodos, foram escolhidas diferentes formas de política antissemita e a própria expressão «Solução Final» sofreu mutações ganhando ao longo do tempo, entre os nazis, significados diferentes e integrando diversos tipos de «soluções». (…)
Primeira etapa: de 1933 a setembro de 1939
Em 1933, havia na Alemanha cerca de
525 mil judeus, dos quais perto de 37 mil fugiram logo após a subida ao poder
de Adolf Hitler. Apesar das diversas medidas antissemitas introduzidas nos
quatro anos seguintes, apenas uma média anual de cerca de 25 mil judeus
«emigrou» da Alemanha. Com a chamada «anexação» da Áustria, onde viviam, em
1938, entre 190 mil e 250 mil judeus, o número destes elevou-se a meio milhão
em toda a Alemanha, ficando quase idêntico ao dos judeus que viviam neste país
em 1933. Em 1939, 250 mil judeus já tinham abandonado o território da Grande
Alemanha.
Nessa primeira fase, tratou-se de
tornar insuportável a vida dos judeus na Alemanha, pela via legislativa,
jurídica, bem como através de interdições profissionais e da violência física
nas ruas. Os nazis começaram por desencadear contra os judeus uma guerra
económica, através de campanhas de boicote ao comércio nas suas mãos. O
fundamento era o antissemitismo, central na ideologia nazi, segundo o qual o
mundo era apresentado como o resultado de uma luta darwiniana inelutável pelo
domínio do mundo entre «arianos» - a raça pura – e os judeus, a «raça» de tal
forma «Impura» que eram percecionados como não humanos, embora poderosos e, por
isso, os mais perigosos. A geografia foi fundamental, pois era objetivo dos
nacional-socialistas a reconstituição daquilo a que chamavam «grande Alemanha»,
não se tratando apenas de extinguir o império colonial, mas criar um Lebensraum
a leste, que incluía a Ucrânia, a Polónia, os países bálticos e a Rússia.
Após o incêndio do Reichstag em fevereiro de 1933, a partir do qual foram neutralizados os principais adversários políticos, sobretudo de esquerda, a começar pelos comunistas e social-democratas, o outro principal alvo dos nazis foi a população judaica. O regime hitleriano procedeu ao boicote do comércio judeu, em 1 de abril de 1933, ao qual se seguiu a exclusão dos judeus das profissões liberais e da função pública. O objetivo nazi relativamente aos judeus era então isolá-los e fazer com que «emigrassem», vindo a principal impulsão antissemita para os eliminar do espaço público dos ativistas de base do NSDAP, da SA e, depois, do complexo Gestapo-SS-SD. (…)
A «Noite de Cristal»
Já no seio do
regime nazi, os principais dirigentes dividiam-se entre uma política violenta
relativamente aos judeus e o receio da má-vontade internacional. Entre os
primeiros, contava-se o ministro dos Negócios Estrangeiros Joachim von
Ribbentrop, mas este perderia então alguma influência junto de Hitler, face ao
chefe do Plano de Quatro Anos, Göring, e ao presidente do Reichsbank Halmar
Schacht, que defendiam um abrandamento da política antissemita. Em agosto de
1938, além de os seus passaportes passarem a incluir o J, os judeus foram
obrigados a acrescentar na sua documentação oficial e nos passaportes os nomes
de Israel e Sara, respetivamente para os homens e as mulheres.
Mas, ao contrário do desejo de
Hitler de se ver «livre dos judeus» nos territórios alemães, com a incorporação
de cerca de 190 mil a 250 mil judeus da Áustria e da Checoslováquia, o Grande
Reich tinha de novo uma população judaica de cerca de meio milhão de pessoas.
Entretanto, em 29 de setembro de 1938, a Alemanha e a Itália assinaram com a
França e a Grã-Bretanha o Acordo dos Appeasers de Munique que forçava a
Checoslováquia a ceder à Alemanha a região montanhosa dos Sudetas, na
Checoslováquia. Na sua vontade de expulsar os judeus da Grande Alemanha, Hitler
não teve de atuar diretamente para acelerar a «arianização» da sua propriedade,
empreendida por Göring desde 1937, nem para orientar a violência na Áustria,
onde os militantes do Partido Nazi e os membros da SA introduziram o terror.
Para que a emigração se
transformasse em expulsão dos judeus, foi desencadeada a chamada «Noite de
Cristal» (9-10 de novembro de 1938), nova etapa de violência antissemita instigada
por Goebbels, que queria recuperar os favores de Hitler. De novo, este
continuou a permanecer na sombra dos bastidores, sem dar abertamente luz verde
ao seu ministro de Propaganda, nem se responsabilizar pela violência dos pogroms,
que se revelaram claramente impopulares e foram até recebidos com
hostilidade por outros membros do regime nazi.
Com o pretexto do assassínio de um
Secretário da Embaixada da Alemanha em Paris, às mãos do judeu polaco Hershel
Grynzpan, foi desencadeada uma onda de violência antissemita por toda a
Alemanha e pela Áustria, às mãos da SS e da SA, por vezes com a passividade
cúmplice de muitos alemães. Nessa designada «Noite de Cristal», expressão
eufemística dos nazis que remeteu para o vidro das lojas, casas e templos de
culto judaico partidas e para os incêndios que perduraram três dias, cem judeus
foram assassinados durante eventos e as crianças judias foram expulsas de
orfanatos.
Trinta mil judeus foram presos e
enviados para campos de concentração, 11 mil dos quais para Dachau e cerca de
10 mil para Buchenwald. Centenas morreriam em cativeiro, antes que os
sobreviventes fossem libertados, após assegurarem que partiriam da Alemanha,
deixando os seus bens. Terão sido destruídas, segundo números oficiais, 267
sinagogas, incendiados e esvaziados 7500 armazéns comerciais, vivendas
comunitárias judaicas e casas privadas de judeus. Na Áustria, a brutalidade
ainda foi proporcionalmente maior, pois o pogrom resultou na destruição
de 42 sinagogas, na morte de 27 judeus e no ferimento com gravidade de centenas
deles, bem como 6500 presos e enviados para Dachau.(…)
Entretanto, no início de dezembro de
1938, os proprietários judeus foram forçados a vender os bens que lhes
restavam. No último dia do ano, as empresas e os trabalhadores independentes
judeus foram obrigados a cessar as suas atividades. No discurso proferido no
Reichstag, em 30 de janeiro de 1939, por ocasião da comemoração da sua chegada
ao poder, Hitler «profetizou» que a Europa não encontraria a paz até que a
questão judaica fosse resolvida. Avisou que, se conseguisse lançar a Europa
numa nova guerra, a «raça judaica da Europa» seria aniquilada. Em abril de
1939, os inquilinos judeus em território alemão ficaram despojados de todos os
direitos face ao proprietário do imóvel que habitavam e, em dezembro, foi-lhes
retirada a carta de condução.
Entretanto, em 14 e 15 de março de 1939, sob pressão alemã, os eslovacos declararam a independência relativamente à antiga Checoslováquia e as tropas alemãs ocuparam este país, em violação dos acordos de Munique, vindo a criar o protetorado da Boémia e Morávia. No dia 31 de março, a França e a Grã-Bretanha, que nada haviam feito relativamente à agressão da Checoslováquia, garantiram a integridade das fronteiras do Estado polaco. Entre 7 e 15 de abril, a Itália fascista invadiu e anexou a Albânia, mas teve de se confrontar com uma grande resistência, que levaria mais tarde a Alemanha a ajudar esse país do Eixo, mandando tropas para os Balcãs. Em 22 de maio, a Itália e a Alemanha concluíram o Pacto de Aço e, em 23 de agosto, o último país assinou com a URSS um pacto de não agressão e um acordo secreto de divisão da Europa de Leste em esferas de influência.”
Pimentel, I. F. (2020). Holocausto. Temas e Debates.








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