terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"Leituras de porta em porta" assinalam o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

 


No âmbito da programação da Biblioteca Escolar para assinalar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, celebrado a 27 de janeiro, realizou-se mais uma edição da atividade “Leituras de porta em porta”.

O texto selecionado foi um excerto da obra “Holocausto”, de Irene Flunser Pimentel, que dá a conhecer a forma como Hitler e as SS planearam a política antissemita do regime nazi, bem como as diferentes mutações que a chamada “Solução Final” foi sofrendo ao longo do tempo, sempre orientada para um único e trágico objetivo: o extermínio do povo judeu.

À semelhança de edições anteriores, esta atividade — que prevê a distribuição de uma proposta de leitura junto da comunidade docente, das assistentes administrativas e dos assistentes operacionais — contou com a colaboração empenhada de um grupo de alunos e alunas monitoras da Biblioteca Escolar. Com grande sentido de responsabilidade e dedicação, deram o seu melhor para fazer chegar esta proposta de leitura a toda a comunidade educativa, contribuindo para a preservação da memória e para a reflexão crítica sobre um dos períodos mais sombrios da História.







Aqui fica o excerto do livro "Holocausto" de Irene F. Pimentel que partilhámos com a nossa comunidade escolar:

“Na muito abundante historiografia sobre a Shoá tende-se a considerar que o mecanismo do extermínio dos judeus procedeu por etapas, ou estádios, num processo em espiral de radicalização de violência imparável. Esta interpretação prende-se com vários motivos, entre os quais com o facto de Hitler nunca ter referido diretamente a «Solução Final» e o da existência de tendências rivais e contraditórias relativamente àquela no regime. Parece hoje pacífico concluir que não existiu um programa predeterminado e consistente de genocídio e, mesmo que tenha havido uma espiral de radicalização, a destruição física dos judeus não seria previsível antes de meados de 1941, ao ser preparada a chamada Operação Barbarossa, de invasão da URSS.

            A chamada – pelos nazis - «Solução Final do problema judaico» terá surgido como solução circunstancial em resposta às dificuldades do regime. Pioneiro na interpretação de um processo por etapas que levou à Shoá foi o historiador Paul Hilberg, que enumerou os cinco estádios da política antissemita nazi:

 

1.   Definição dos judeus e a proibição de certas atividades e profissões.

2.    Expropriação.

3.    Concentração e fecho em guetos.

4.    Deportação.

5.    Genocídio.

 

Mais tarde, o historiador Yehuda Bauer também considerou que a política nazi relativamente aos judeus se desenvolveu por estágios, o que não quer dizer que num determinado momento de viragem de um para o outro não tivesse havido a consideração de outras opções, sempre incluídas na ideia de que os judeus não tinham lugar, não só na Alemanha, como na Europa e no mundo. Consoante os períodos, foram escolhidas diferentes formas de política antissemita e a própria expressão «Solução Final» sofreu mutações ganhando ao longo do tempo, entre os nazis, significados diferentes e integrando diversos tipos de «soluções». (…)

Primeira etapa: de 1933 a setembro de 1939

            Em 1933, havia na Alemanha cerca de 525 mil judeus, dos quais perto de 37 mil fugiram logo após a subida ao poder de Adolf Hitler. Apesar das diversas medidas antissemitas introduzidas nos quatro anos seguintes, apenas uma média anual de cerca de 25 mil judeus «emigrou» da Alemanha. Com a chamada «anexação» da Áustria, onde viviam, em 1938, entre 190 mil e 250 mil judeus, o número destes elevou-se a meio milhão em toda a Alemanha, ficando quase idêntico ao dos judeus que viviam neste país em 1933. Em 1939, 250 mil judeus já tinham abandonado o território da Grande Alemanha.

            Nessa primeira fase, tratou-se de tornar insuportável a vida dos judeus na Alemanha, pela via legislativa, jurídica, bem como através de interdições profissionais e da violência física nas ruas. Os nazis começaram por desencadear contra os judeus uma guerra económica, através de campanhas de boicote ao comércio nas suas mãos. O fundamento era o antissemitismo, central na ideologia nazi, segundo o qual o mundo era apresentado como o resultado de uma luta darwiniana inelutável pelo domínio do mundo entre «arianos» - a raça pura – e os judeus, a «raça» de tal forma «Impura» que eram percecionados como não humanos, embora poderosos e, por isso, os mais perigosos. A geografia foi fundamental, pois era objetivo dos nacional-socialistas a reconstituição daquilo a que chamavam «grande Alemanha», não se tratando apenas de extinguir o império colonial, mas criar um Lebensraum a leste, que incluía a Ucrânia, a Polónia, os países bálticos e a Rússia.

            Após o incêndio do Reichstag em fevereiro de 1933, a partir do qual foram neutralizados os principais adversários políticos, sobretudo de esquerda, a começar pelos comunistas e social-democratas, o outro principal alvo dos nazis foi a população judaica. O regime hitleriano procedeu ao boicote do comércio judeu, em 1 de abril de 1933, ao qual se seguiu a exclusão dos judeus das profissões liberais e da função pública. O objetivo nazi relativamente aos judeus era então isolá-los e fazer com que «emigrassem», vindo a principal impulsão antissemita para os eliminar do espaço público dos ativistas de base do NSDAP, da SA e, depois, do complexo Gestapo-SS-SD. (…)

A «Noite de Cristal»

Já no seio do regime nazi, os principais dirigentes dividiam-se entre uma política violenta relativamente aos judeus e o receio da má-vontade internacional. Entre os primeiros, contava-se o ministro dos Negócios Estrangeiros Joachim von Ribbentrop, mas este perderia então alguma influência junto de Hitler, face ao chefe do Plano de Quatro Anos, Göring, e ao presidente do Reichsbank Halmar Schacht, que defendiam um abrandamento da política antissemita. Em agosto de 1938, além de os seus passaportes passarem a incluir o J, os judeus foram obrigados a acrescentar na sua documentação oficial e nos passaportes os nomes de Israel e Sara, respetivamente para os homens e as mulheres.

            Mas, ao contrário do desejo de Hitler de se ver «livre dos judeus» nos territórios alemães, com a incorporação de cerca de 190 mil a 250 mil judeus da Áustria e da Checoslováquia, o Grande Reich tinha de novo uma população judaica de cerca de meio milhão de pessoas. Entretanto, em 29 de setembro de 1938, a Alemanha e a Itália assinaram com a França e a Grã-Bretanha o Acordo dos Appeasers de Munique que forçava a Checoslováquia a ceder à Alemanha a região montanhosa dos Sudetas, na Checoslováquia. Na sua vontade de expulsar os judeus da Grande Alemanha, Hitler não teve de atuar diretamente para acelerar a «arianização» da sua propriedade, empreendida por Göring desde 1937, nem para orientar a violência na Áustria, onde os militantes do Partido Nazi e os membros da SA introduziram o terror.

            Para que a emigração se transformasse em expulsão dos judeus, foi desencadeada a chamada «Noite de Cristal» (9-10 de novembro de 1938), nova etapa de violência antissemita instigada por Goebbels, que queria recuperar os favores de Hitler. De novo, este continuou a permanecer na sombra dos bastidores, sem dar abertamente luz verde ao seu ministro de Propaganda, nem se responsabilizar pela violência dos pogroms, que se revelaram claramente impopulares e foram até recebidos com hostilidade por outros membros do regime nazi.

            Com o pretexto do assassínio de um Secretário da Embaixada da Alemanha em Paris, às mãos do judeu polaco Hershel Grynzpan, foi desencadeada uma onda de violência antissemita por toda a Alemanha e pela Áustria, às mãos da SS e da SA, por vezes com a passividade cúmplice de muitos alemães. Nessa designada «Noite de Cristal», expressão eufemística dos nazis que remeteu para o vidro das lojas, casas e templos de culto judaico partidas e para os incêndios que perduraram três dias, cem judeus foram assassinados durante eventos e as crianças judias foram expulsas de orfanatos.

            Trinta mil judeus foram presos e enviados para campos de concentração, 11 mil dos quais para Dachau e cerca de 10 mil para Buchenwald. Centenas morreriam em cativeiro, antes que os sobreviventes fossem libertados, após assegurarem que partiriam da Alemanha, deixando os seus bens. Terão sido destruídas, segundo números oficiais, 267 sinagogas, incendiados e esvaziados 7500 armazéns comerciais, vivendas comunitárias judaicas e casas privadas de judeus. Na Áustria, a brutalidade ainda foi proporcionalmente maior, pois o pogrom resultou na destruição de 42 sinagogas, na morte de 27 judeus e no ferimento com gravidade de centenas deles, bem como 6500 presos e enviados para Dachau.(…)

            Entretanto, no início de dezembro de 1938, os proprietários judeus foram forçados a vender os bens que lhes restavam. No último dia do ano, as empresas e os trabalhadores independentes judeus foram obrigados a cessar as suas atividades. No discurso proferido no Reichstag, em 30 de janeiro de 1939, por ocasião da comemoração da sua chegada ao poder, Hitler «profetizou» que a Europa não encontraria a paz até que a questão judaica fosse resolvida. Avisou que, se conseguisse lançar a Europa numa nova guerra, a «raça judaica da Europa» seria aniquilada. Em abril de 1939, os inquilinos judeus em território alemão ficaram despojados de todos os direitos face ao proprietário do imóvel que habitavam e, em dezembro, foi-lhes retirada a carta de condução.

            Entretanto, em 14 e 15 de março de 1939, sob pressão alemã, os eslovacos declararam a independência relativamente à antiga Checoslováquia e as tropas alemãs ocuparam este país, em violação dos acordos de Munique, vindo a criar o protetorado da Boémia e Morávia. No dia 31 de março, a França e a Grã-Bretanha, que nada haviam feito relativamente à agressão da Checoslováquia, garantiram a integridade das fronteiras do Estado polaco. Entre 7 e 15 de abril, a Itália fascista invadiu e anexou a Albânia, mas teve de se confrontar com uma grande resistência, que levaria mais tarde a Alemanha a ajudar esse país do Eixo, mandando tropas para os Balcãs. Em 22 de maio, a Itália e a Alemanha concluíram o Pacto de Aço e, em 23 de agosto, o último país assinou com a URSS um pacto de não agressão e um acordo secreto de divisão da Europa de Leste em esferas de influência.”

 Pimentel, I. F. (2020). Holocausto. Temas e Debates. 




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