terça-feira, 13 de outubro de 2026

A nossa 1.ª sugestão de leitura para os alunos do 5.º ano

 

Já imaginaste passar um dia inteiro sem o telemóvel? Para muitos jovens, esta ideia parece quase impossível! Mas será que damos conta do tempo que passamos agarrados ao ecrã?

No livro “Eu não Quero Largar o Telemóvel”, A. P. Hernández convida-nos a refletir sobre a relação que estabelecemos com a tecnologia e sobre a importância de encontrar um equilíbrio entre o mundo digital e a vida real.

Passar demasiadas horas ao telemóvel pode trazer consequências: prejudicar o sono, dificultar a concentração, afetar o rendimento escolar, provocar cansaço visual e reduzir o tempo dedicado à leitura, à atividade física e ao convívio com a família e os amigos. Além disso, a utilização excessiva pode aumentar a ansiedade e criar uma necessidade constante de consultar notificações e redes sociais.

O desafio é simples: usar o telemóvel sem deixar que seja ele a controlar o nosso tempo!

Porque há conversas que merecem toda a nossa atenção, livros que nos transportam para outros mundos e momentos que são demasiado importantes para serem vividos através de um ecrã.

E tu? Consegues largar o telemóvel e descobrir tudo o que acontece à tua volta?

A Biblioteca Escolar convida-te a descobrir este livro, partilhando contigo alguns excertos do mesmo, e a refletir sobre os teus hábitos digitais!



“O Martim tomou uma decisão.

Quer um telemóvel. E quere-o já. Agora mesmo!

É que, na turma dele, toda a gente tem um.

Todos menos ele, claro.

Porque os seus pais teimam que ele é muito pequeno para ter um telemóvel.

Mas, por alguma estranha razão, não é muito novo para ir para a escola todos os dias durante sete horas. Nem para fazer todos os trabalhos de casa que lhe mandam os professores. Nem para estudar todos os livros que lhe dizem para estudar.

Aaaahhh!

Mas, para isso, sim, para ter um telemóvel com que se entreter um bocadinho de vez em quando, já é muito novo. Será que o mundo inteiro enlouqueceu?

A insistência do Martim em ter um telemóvel chegou tão longe…mas tão, tão longe, que os pais para não terem de ouvir mais a mesma lengalenga, fizeram um acordo com ele.

- Queres um telemóvel? – pergunta-lhe o pai, enquanto tomam o pequeno-almoço.

O Martim fica em branco. De tal maneira que as palavras não lhe saem. Por isso, limita-se a assentir energicamente com a cabeça.

- Então, se queres que te demos um telemóvel, escuta-nos com atenção – prossegue a mãe (…) – Vamos fazer um acordo, está bem?

O Martim engole em seco.

- Eu faço o que for preciso! – promete ele aos pais. – Até… Até… Até como as lentilhas se for preciso.(…)

- Se queres um telemóvel, tens de nos demonstrar que és um menino crescido e responsável.

- E para isso – continua o pai -, tens de ter Excelente em todos os testes.

O Martim leva as mãos à cabeça.

- Excelente? – Mal consegue acreditar. – Mas isso é impossível!

- Sem Excelentes, não há telemóvel. (…)

O Martim vai fazer o impossível.

Ele sabe que os pais lhe pediram para passar em todos os testes com a nota Excelente porque, no fundo, não acreditam que ele seja capaz. Porque não têm a menor intenção de lhe comprar um telemóvel.

Mas sabes que mais?

Não vão ter outro remédio a não ser comprar-lhe um telemóvel.

E sabes porquê?

Porque vai conseguir um Excelente em todos os testes! (…)

A partir de hoje, o Martim começa a estudar. E estuda como um lince. E mais… Estuda como uma autêntica máquina! (…)

E, de manhã, o seu pequeno-almoço é bolachas com livros. E, no pátio da escola, come sandes de queijo com livros.

E é assim que passa o tempo até chegar a altura dos testes. O Martim faz os testes tão bem, que os seus professores lhe dão Excelente em todos.

E não Bom ou Muito Bom. Não. Excelente!

O Martim chega a casa com o seu boletim de notas do segundo período e mostra-o aos pais. Eles ficam com cara de quem acabou de ver um fantasma.- Mas… Mas… (…)

O boletim de notas passa das mãos do Emílio para as da Letícia… e vice-versa… uma e outra vez.

O Martim ergue o queixo todo satisfeito. Os pais nem conseguem acreditar.(…)

E agora têm mesmo de lhe comprar um telemóvel.

Finalmente, chegou o dia. O Martim entra em casa após um longo dia na escola e dá de caras com os pais. Estão os dois de pé junto à porta de entrada e a sorrir. Mas o Martim não se concentra nos seus sorrisos, antes na caixinha envolta em papel de embrulho que a mãe tem nas mãos. (…)

- É o meu telemóvel! – O Martim começa a dar saltos pelo corredor, qual cabra-montesa. – O meu telemóvel! O meu telemóvel! E, depois de uns minutos de euforia, volta a recuperar a calma.

- Martim, nas últimas semanas, mostraste ser muito responsável – diz-lhe a mãe. – Por isso, eu e o teu pai decidimos oferecer-te isto. (…)

O Martim encolhe os dedos e rasga o papel como um animal enlouquecido. Abre a caixa do telemóvel e…

Ali está ele. É um telemóvel. O seu telemóvel. O seu próprio telemóvel. Está tão feliz que começa a chorar.

Desde que tem telemóvel, a vida do Martim mudou para sempre. Os colegas da escola adicionaram-no ao grupo de WhatsApp e agora está a par de tudo.

Já se pode rir com o seu amigo Henrique de todas as piadas que se contam, ver os vídeos que os colegas recomendam e jogar os mesmos jogos que todas as crianças da sua idade. Ter um telemóvel é maravilhoso.

Pelo menos, é nisso que ele acredita…

Hoje é sábado e, como sempre, combinou encontrar-se com o melhor amigo, o Henrique, e com o Rodrigo, o segundo melhor amigo.

Vão jogar futebol no parque por volta das onze da manhã, por isso o Martim toma um bom pequeno-almoço, pega na sua bola e sai de casa. (…)

Ao chegar, o Henrique já lá está. E o Rodrigo também. E, como se não bastasse, a Maria também decidiu ir jogar futebol.

- Bom dia! – cumprimenta-os o Martim, deixando a bola cair no chão. Mas os amigos não lhe respondem.

Estão superconcentrados nos seus telemóveis. Estão os três sentados no mesmo banco, à sombra de um pinheiro frondoso, e têm os olhares cravados nos ecrãs.

- Bom dia, malta! – repete o Martim. E após alguns segundos de silêncio, o Henrique diz-lhe:

- O-olá.

Está tão abstraído com o telemóvel que mal o ouve.

No entanto, a Maria e o Rodrigo não o cumprimentam. O Martim acha que, se calhar, não se aperceberam de que ele chegou.

- Bem, malta… - O Martim passa a bola de um pé para o outro. – Quem é que vai ser o guarda-redes? 

E, mais uma vez, silêncio. Todos deslizam os dedinhos de um lado para o outro do ecrã dos respetivos telemóveis.

O Martim, cansado de esperar, decide sentar-se ao pé dos amigos.

- Está bem! – diz-lhes, pousando a bola no colo. – Eu espero que vocês acabem.

E assim passam minutos… muitos minutos… muitíssimos…

O Martim está tão aborrecido que, com os ténis, remexeu toda a terra e as pedras que há debaixo do banco.

- Bem… vamos jogar agora?

Mas os amigos parecem ausentes. Não dizem nada. Durante todo o tempo que estão ali sentados, não disseram uma única palavra. Nada!

O Martim lembra-se de que, antes de terem telemóveis, não paravam de falar, de brincar, de rir…,

- Malta… - O Martim começa a ficar chateado. – Vamos jogar ou não?

O Rodrigo, pela primeira vez desde que o viu, levanta os olhos do telemóvel. Tem os olhos em bico e um pouco irritados.

- Martim, já estamos a jogar.

E, como se não fosse suficientemente óbvio, mostra-lhe o ecrã do telemóvel.

- Tenho cinco mil pontos! – gaba-se a Maria.

- E eu, sete mil! – afirma o Henrique.

- Mas eu estou a falar de jogarmos futebol. – O Martim aponta para a bola que descansou docilmente no seu colo este tempo todo. – Combinámos vir jogar futebol! Lembram-se?

- Porque é que não jogas também a isto? – pergunta a Maria.

- Porque deixei o telemóvel em casa – explica o Martim – e porque quero jogar futebol.

Mas os amigos não estão dispostos a largar os telemóveis. Dando a conversa por concluída, voltam a baixar as cabeças e a concentrar-se nos smartphones.

O Martim, que já tem o rabo dorido de estar tanto tempo sentado, pega na bola e põe-se a jogar sozinho.

O Martim chega a casa triste. Nenhum dos amigos quis jogar futebol com ele, por isso teve de jogar contra a parede. Dava um pontapé na bola, que ressaltava na parede para ele lhe dar outro pontapé. E assim continuou durante quase duas horas. Jogar contra a parede não é nada divertido. (…)

Para o caso de não saberes, o Martim tem um cão e um gato. O seu gato, o Felpudo, e a sua cadelinha, a Nevada, dão-se muito bem. A Nevada tem seis meses e está cheia de energia, por isso o Martim tem de a passear todos os dias.

- Nevada! – chama-a ele. – Vamos?

E a cadelinha começa a dar saltos de pura felicidade. (…) O Martim segura a trela da Nevada com a mão direita até que ouve um bip. É o seu telemóvel.

O Martim tira-o do bolso com a mão esquerda e verifica que tem uma mensagem nova.

- De quem será?

Continua a andar enquanto olha para o ecrã, seleciona a aplicação do WhatsApp Messenger e comprova que no grupo «Colegas de Turma» há 25 mensagens novas. Carrega no grupo e começa a ler. A última mensagem é…

PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

O Martim para de repente, com o coração a mil à hora.

Levanta os olhos do telemóvel e confirma que está no meio da estrada. Um carro travou mesmo à sua frente.

O condutor baixa a janela.

- Meus Deus, rapaz! – grita-lhe. – Estás cego?

O Martim está tão assustado que não diz nada. A Nevada empina-se, apoiando-se no seu joelho enquanto lhe lambe a mão.

- Tens de atravessar na passadeira! – diz-lhe o homem do carro. – E tens de tirar os olhos do telemóvel quando o fazes! É muito perigoso! (…)

O Martim não aguenta mais. Tem de fazer alguma coisa o quanto antes, por isso vai ter com a mãe.

- Martim! – exclama ela. – Que estás a fazer acordado?

- Não consigo dormir, mãe.

O Martim senta-se no sofá junto à mãe e esta aconchega-o entre os braços.

- Que te preocupa, filho?

- É… É o telemóvel… - confessa. – Está a dar comigo em doido. Desde que tenho telemóvel, tudo mudou. Ao almoço, a massa ficou fria, esta noite não consegui ver o filme A Idade do Gelo e à tarde… à tarde quase fui atropelado por um carro.

A mãe reprime um grito.

- O quê?!

- Odeio o telemóvel, mãe… E os meus amigos ficam chateados se não ler as mensagens deles… E passam o dia todo a enviar mensagens!

A Letícia faz-lhe festas no cabelo, esboçando um sorriso cheio de carinho.

- Filho… Ter um telemóvel pode ser uma coisa muito boa ou muito má. (…) Um telemóvel pode ser uma coisa boa quando é usado com responsabilidade. Por exemplo, no outro dia, o motor da carrinha do teu pai avariou-se em plena autoestrada e, graças ao seu telemóvel, conseguiu ligar para um reboque o ir buscar. O Martim escuta com toda a atenção.

- Um telemóvel também pode ser muito divertido se jogares um bocadinho com ele ou se o usares para falar um pouco com os teus amigos, mas que acontece se passares o dia todo a usar o telemóvel?

O Martim não diz nada.

- Que acontece se, desde que te levantas até que te deitas, estiveres sempre ao telemóvel? (…) - Ficas com dor de cabeça.

O Martim pensa em tudo o que a mãe acaba de lhe dizer.

- E agora, mãe? O que é que eu faço?

A mãe acaricia-lhe o queixo.

- Vamos criar regras, está bem? Algumas condições de utilização. (…)

- A primeira regra é que o telemóvel não é um brinquedo.

- A segunda é que, embora o telemóvel seja teu, isso não significa que só tu o possas usar. Eu e a tua mãe também o utilizaremos para nos assegurarmos de que fazes um bom uso dele. (…)

- A terceira regra é que vais ter um horário para o utilizar, por exemplo, meia hora antes do jantar. Ter um horário fixo é muito importante. (…)

Benditas regras. Agora, tudo é mais simples. (…) O Martim aprendeu que há um momento para cada coisa.”

In Hernández, A. P. (2025). Eu não quero largar o telemóvel. Presença. (Adaptado)

 


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